Milhares de celulares nas regiões de São Paulo e Curitiba receberam, na madrugada deste sábado (20), alertas da Defesa Civil de forma simultânea, sem que houvesse qualquer registro oficial de emergência nas áreas. O episódio gerou confusão entre os moradores e motivou uma investigação sobre a origem do disparo em massa das notificações, que continham a palavra "Misantropia" como alerta.
As mensagens apareceram no formato de alerta, em alguns casos acompanhadas de som, mesmo durante a madrugada. O comportamento do sistema – normalmente ativado apenas em situações de risco extremo ou severo – levantou suspeitas de falha técnica ou até de acesso indevido à plataforma.
Investigação em andamento
Até o momento, não há confirmação oficial sobre a origem do problema. As autoridades trabalham com diferentes hipóteses, incluindo erro operacional, instabilidade no sistema de distribuição ou possível ataque cibernético a algum dos pontos da cadeia de transmissão. A Polícia Federal está investigando o ocorrido e se de fato houve um ataque hacker.
Complexidade do sistema
O professor Marcelo Zuffo, do Departamento de Engenharia de Sistemas Eletrônicos e do Laboratório de Sistemas Integrados da Escola Politécnica da USP, afirma que ainda é cedo para apontar uma causa única, devido à complexidade do sistema envolvido. “Em sistemas desse tipo, existe uma cadeia longa de operação. O problema pode estar em diferentes pontos, desde a origem do alerta até a distribuição pelas operadoras. Sem uma investigação técnica detalhada, não é possível cravar onde ocorreu a falha”, disse.
Zuffo explica que o sistema de alertas da Defesa Civil utiliza a tecnologia Cell Broadcast, que permite o envio simultâneo de mensagens para celulares conectados às antenas de uma determinada área, sem necessidade de cadastro prévio. Ele ressalta que, por envolver múltiplos agentes – Defesa Civil, Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e operadoras de telefonia –, a “superfície de falha” é ampla, dificultando a identificação imediata da origem do problema. “Pode ter sido um erro operacional, uma falha técnica ou até uma ação externa. Em sistemas complexos como esse, todos esses cenários precisam ser considerados”, afirmou.
Como funciona o sistema
O sistema é utilizado para alertas de risco extremo, como enchentes, deslizamentos e outros desastres naturais, funcionando como uma espécie de “sirene digital” enviada diretamente aos celulares da população em áreas de risco. Esse mecanismo é baseado no CAP (Common Alerting Protocol), padrão internacional usado para estruturar mensagens de emergência de forma interoperável entre diferentes sistemas e redes.
O protocolo define campos como tipo de evento, nível de gravidade, urgência, área afetada, instruções à população, idioma, tempo de validade e autoridade responsável pelo alerta. Segundo a União Internacional de Telecomunicações (ITU), o CAP funciona como um formato universal para troca de alertas de todos os tipos de risco em diferentes plataformas de comunicação. No Brasil, documentos da Defesa Civil indicam que o sistema nacional de alertas utiliza o protocolo e que há iniciativas de integração regional, incluindo articulações no âmbito do Mercosul.