O diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, classificou como "equívoco" a decisão dos Estados Unidos de incluir as facções criminosas brasileiras Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) em sua lista de organizações terroristas. A medida, anunciada em 28 de maio pelo Departamento de Estado americano, entrou em vigor nesta sexta-feira (5).

Em entrevista à TV Globo, Rodrigues argumentou que organizações terroristas têm motivações ideológicas ou religiosas, enquanto o crime organizado busca lucro. "Essa definição é um equívoco, porque a estratégia de enfrentamento é diferente para um grupo e para outro", afirmou. Ele ressaltou que a decisão não alterará a atuação da PF nem as políticas brasileiras de combate ao crime organizado.

Apesar das críticas, o diretor vê na medida uma oportunidade para ampliar a cooperação internacional. "Isso se torna uma oportunidade de ampliarmos a cooperação, de termos mais troca de informações, bloqueio do envio de armas para o Brasil, prisão de foragidos da Justiça brasileira nos Estados Unidos", declarou.

Reações e impactos diplomáticos

Nos bastidores, integrantes do Palácio do Planalto e do Itamaraty defendem a manutenção do diálogo com as autoridades norte-americanas, mas admitem que a decisão dificilmente será revertida no curto prazo. A PF não foi comunicada oficialmente sobre a medida e tomou conhecimento pela imprensa. Segundo Rodrigues, ainda é cedo para avaliar se a classificação terá impacto na cooperação bilateral.

Em abril, um mal-estar diplomático ocorreu entre Brasil e EUA após a prisão e posterior soltura do ex-deputado Alexandre Ramagem, foragido da Justiça brasileira. Um delegado da PF que atuava como oficial de ligação em Miami teve papel fundamental na captura, mas foi posteriormente retirado do país. Em resposta, a PF removeu as credenciais de um agente de imigração dos EUA em Brasília, por reciprocidade.

Circulação de armas e efeitos econômicos

Rodrigues também destacou a necessidade de bloquear o envio ilícito de armas para o Brasil. Dados do Atlas da Violência 2026 indicam aumento na apreensão de pistolas semiautomáticas e armas de estilo militar, sugerindo maior acesso de organizações criminosas a armamentos de diferentes origens, incluindo dos EUA.

Especialistas apontam possíveis efeitos econômicos da classificação. Para Eduardo Mello, professor da FGV, a medida pode aumentar exigências de compliance para empresas com negócios nos EUA, elevando custos e desestimulando investimentos no Brasil.

O governo brasileiro, em nota, afirmou que o combate ao crime organizado é prioridade, mas destacou que a cooperação internacional deve respeitar a soberania nacional.

Com informações de G1 — Política.