Banco Digimais. Foto: Divulgação
A Polícia Federal acusa o Digimais, de Edir Macedo, de usar direitos sobre créditos originados em 1942 para inflar os balanços da instituição em pelo menos R$ 670 milhões. Segundo a coluna de Demétrio Vecchioli no Metrópoles, o banco registrou ativos comprados por valores muito menores como se valessem centenas de milhões de reais.
Os créditos têm origem em uma disputa contra a União envolvendo antigos acionistas da Companhia Brasileira de Mineração e Siderurgia e da Itabira de Mineração, empresas ligadas à criação da Companhia Vale do Rio Doce, hoje Vale. Getúlio Vargas encampou a CBMS para formar a estatal, e os acionistas e herdeiros entraram com ação em 1967 para cobrar indenização pelos direitos minerais.
A sentença transitou em julgado em 1984 e determinou que a União pagasse 7 mil ações da Companhia Vale do Rio Doce, equivalentes a 3,5% da empresa, além de desdobramentos, bonificações e dividendos acumulados desde 1967. O processo ainda tramita na 2ª Vara Federal do Rio de Janeiro e permanece em fase de liquidação por causa da complexidade dos cálculos e da sucessão de beneficiários.
Entre os autores da ação inicial estava Gastão de Azevedo Villela, nascido em 1877 e morto em 1955. Os herdeiros de seus herdeiros têm direito a 13,5% daquelas 7 mil ações e, depois de décadas sem receber a indenização, venderam parte dos direitos creditórios ao Digimais.
Bispo Edir Macedo discursa em evento da Igreja Universal no estádio do Maracanã, no Rio. Foto: Reprodução
Fundos do Digimais elevaram créditos a R$ 741,3 milhões
De acordo com a PF, o Digimais iniciou a estratégia no começo de 2023 ao comprar fatias do crédito por valores de mercado e remarcar os ativos nos livros contábeis por valores muito superiores. O ID 112 FIDC registrou a compra de 7,7% do crédito por R$ 9 milhões; pouco depois, o ativo seguiu para outro veículo do grupo, o Fundo Guidare, e recebeu avaliação de R$ 100 milhões. Mais tarde, uma fatia de 9,25% foi adquirida por R$ 22 milhões e registrada no balanço por R$ 130 milhões.
Em setembro de 2023, o Hermon FIDC, outro fundo do Digimais, comprou duas novas partes do crédito diretamente da família Villela por R$ 20 milhões cada. Com base em pareceres jurídicos, cada uma foi remarcada para R$ 174,5 milhões. Segundo a PF, direitos creditórios que custaram R$ 71 milhões passaram a constar nos balanços do grupo de Edir Macedo por R$ 741,3 milhões.
A União provisionava R$ 7 bilhões para pagar a dívida, cujo cálculo segue controverso. Em 2014, a Lei de Diretrizes Orçamentárias daquele ano registrou provisão de R$ 24 bilhões, valor que os autores da ação passaram a cobrar.
Com 13,5% sobre eventual pagamento nessa base, os Villelas poderiam receber R$ 3,2 bilhões; eles venderam ao Digimais direitos sobre cerca de um terço desse montante potencial, que seria dividido também com advogados que atuam no processo há 59 anos.
Para a PF, a operação produziu uma valorização artificial que permitiu ao Digimais apresentar patrimônio líquido mais robusto e captar recursos do público por meio de CDBs, em movimentação que os investigadores compararam ao Banco Master. O Banco Central determinou que o banco revertesse os lançamentos ao valor original de custo.
Segundo a investigação, o Digimais vendeu no final de 2025 as cotas dos fundos que continham os créditos para sua controladora, a B.A. Empreendimentos e Participações, pelo valor inflado de R$ 741,3 milhões, com pagamento previsto apenas para 2032. A PF classificou a operação como uma “burla à determinação de correção” do BC e apontou estouro de quase R$ 700 milhões nos limites legais de exposição de crédito ao controlador.
A auditoria Clifton Larson Allen emitiu relatório com abstenção de opinião e afirmou que não conseguiu concluir sobre a existência física dos documentos de lastro nem sobre as premissas usadas para definir o valor bilionário dos créditos.