Sonhar acordado é uma atividade mental comum e, em geral, saudável. No entanto, para algumas pessoas, essa prática se torna um comportamento compulsivo e prejudicial, conhecido como devaneio excessivo (maladaptive daydreaming). A condição, que afeta entre 2% e 4% da população adulta, segundo o psiquiatra e pesquisador Colin Ross, pode levar os indivíduos a passar mais da metade do tempo acordados imersos em fantasias elaboradas, com roteiros que se desenrolam por décadas.

O que é o devaneio excessivo?

O devaneio excessivo é caracterizado por fantasias imersivas e detalhadas, com narrativas e personagens internos. Em casos extremos, a pessoa pode sonhar acordada por até 12 horas por dia, segundo Ross. Embora possa parecer inspirador, a imersão causa rupturas na vida cotidiana, gerando sofrimento. O professor Eli Somer, da Universidade de Haifa, que cunhou o termo em inglês, explica: "O problema surge quando a pessoa não domina mais a fantasia e a fantasia começa a dominar a pessoa."

Sinais e sintomas

O devaneio excessivo muitas vezes é desencadeado ou mantido por música ou atividades físicas repetitivas, como caminhar. Cerca de 80% das pessoas incorporam gestos físicos inconscientes para manter a concentração durante os sonhos diurnos. O tempo gasto sonhando acordado leva ao isolamento social, gerando um ciclo de vergonha e culpa. Kyla Borcherds, que vivencia a condição desde os quatro anos, relata: "Era simplesmente um desejo muito poderoso, como as pessoas dizem que têm desejo de se encher de chocolate ou de ficar nas redes sociais."

Fatores de risco e associações

Estudos associam o devaneio excessivo a traumas na infância, como negligência e abusos emocionais, além de problemas de apego. Também há forte relação com neurodiversidade: em um estudo com 235 adultos com transtorno do espectro autista, 43% relataram experiências de devaneio excessivo. A condição também se sobrepõe a TDAH, TOC, depressão e ansiedade. Eli Somer ressalta que, embora haja sobreposição, o devaneio excessivo "tem uma fenomenologia distinta e concentrada na fantasia narrativa imersiva".

Tratamento e perspectivas

O devaneio excessivo ainda não é reconhecido pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais nem pela Classificação Internacional de Doenças, o que dificulta o estabelecimento de um tratamento padrão. No entanto, psicoterapia dirigida tem mostrado resultados animadores, focando em gatilhos, controle da atenção e regulação emocional. O objetivo clínico, segundo Somer, não é eliminar a imaginação, mas "restaurar a escolha, flexibilidade e controle sobre ela".

Estratégias práticas

A psicóloga clínica Wanda Fischera sugere estratégias como identificar e evitar gatilhos — por exemplo, uma cliente descobriu que não consegue sonhar acordada quando seu gato está no quarto. Maria, que preferiu não revelar o sobrenome, descobriu que escrever suas histórias a ajuda a canalizar a criatividade. Kyla Borcherds, hoje moderadora de uma comunidade no Reddit com 18 mil visitantes semanais, afirma: "Ter histórias na sua cabeça não é o problema. A questão é ficar viciada nessas histórias."

Com informações de Folha — Equilíbrio e Saúde.