Sonhar acordado é uma atividade mental comum e, em geral, saudável. Pesquisas indicam que entre 30% e 50% dos pensamentos diários das pessoas não estão relacionados à tarefa imediata. No entanto, para uma parcela da população, essa prática se torna compulsiva e prejudicial: é o chamado devaneio excessivo (maladaptive daydreaming).

Segundo o psiquiatra e pesquisador americano Colin Ross, a condição afeta de 2% a 4% dos adultos. Em casos extremos, a pessoa pode passar até 12 horas por dia imersa em fantasias elaboradas, com narrativas e personagens que se desenrolam por décadas.

Quando o sonho vira problema

O devaneio excessivo se caracteriza por um desejo poderoso e compulsivo de fantasiar, que interfere na capacidade de funcionar no dia a dia. "O problema surge quando a pessoa não domina mais a fantasia e a fantasia começa a dominar a pessoa", explica o professor emérito de psicologia clínica Eli Somer, da Universidade de Haifa, em Israel, que cunhou o termo em inglês.

Diferente do sonhar acordado comum, que pode trazer benefícios como regulação emocional, empatia e criatividade, o devaneio excessivo causa sofrimento. As pessoas tendem a considerar suas fantasias como fúteis e um desperdício de tempo, mas a natureza viciante mantém o ciclo.

Sinais e comportamentos

O devaneio excessivo muitas vezes é desencadeado ou mantido por estímulos como música ou atividades físicas repetitivas (caminhar, por exemplo). Cerca de 80% das pessoas incorporam gestos físicos inconscientes para manter a concentração durante os sonhos diurnos.

Kyla Borcherds, que desde os quatro anos criava "outros mundos" na cabeça, relata que o hábito se intensificou após sofrer bullying na escola. As fantasias se tornaram um "lugar seguro". Com o tempo, passou a sonhar acordada por horas seguidas. "Era simplesmente um desejo muito poderoso, como as pessoas dizem que têm desejo de se encher de chocolate ou de ficar nas redes sociais", conta.

O tempo dedicado às fantasias leva ao isolamento social, gerando um ciclo de vergonha e culpa. Borcherds percebeu o prejuízo na carreira: "Por que eu investiria tempo e energia para tentar ser promovida, se podia ter o mesmo na minha imaginação, instantaneamente e sem esforço, com 95% da satisfação da vida real?"

Causas e associações

Estudos relacionam o devaneio excessivo a fatores como traumas na infância (negligência, abusos emocionais, problemas de apego), servindo como mecanismo de fuga de sentimentos dolorosos. Também há forte associação com neurodiversidade: uma pesquisa com 235 adultos autistas apontou que 43% relataram experiências de devaneio excessivo, ligadas à solidão e dificuldades de regulação emocional.

A condição compartilha características com transtornos como TDAH, TOC, depressão e ansiedade. "Com TDAH, a sobreposição é especialmente importante, pois a fantasia em excesso pode parecer falta de atenção", explica Somer. No entanto, ele ressalta que "sobreposição não significa similaridade" — o devaneio excessivo tem fenomenologia distinta, focada em fantasia narrativa imersiva e absorção dissociativa.

Tratamento e recuperação

O devaneio excessivo ainda não é reconhecido como transtorno pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) nem pela Classificação Internacional de Doenças (CID), o que dificulta o estabelecimento de um tratamento padrão baseado em evidências. Ainda assim, Somer afirma que "as primeiras evidências clínicas são animadoras". Estudos iniciais indicam que a psicoterapia dirigida pode ajudar, focando em gatilhos, imersão compulsiva, controle da atenção, regulação emocional e vergonha.

O objetivo clínico, segundo Somer, não é eliminar a imaginação, mas restaurar a escolha, flexibilidade e controle sobre ela. "A capacidade imaginativa poderá servir à vida, em vez de substituí-la."

A psicóloga clínica Wanda Fischera, diretora de pesquisa da Sociedade Internacional de Devaneio Excessivo, sugere estratégias práticas antes da terapia, como identificar "gatilhos ambientais" que impeçam o devaneio. Ela cita o exemplo de uma cliente que não consegue fantasiar quando o gato está no quarto — e mantém o animal por perto.

Maria, que preferiu não revelar o sobrenome, descobriu que escrever histórias a ajuda a canalizar a criatividade, substituindo as fantasias compulsivas. Já Kyla Borcherds tornou-se moderadora de uma comunidade no Reddit sobre o tema, que recebe 18 mil visitantes semanais. Ela afirma que o problema "não precisa durar para sempre" e destaca: "Ter histórias na sua cabeça não é o problema. A questão é ficar viciada nessas histórias."

Com informações de BBC News Brasil.