O devaneio excessivo, condição em que a pessoa passa horas imersa em fantasias elaboradas, pode afetar de 2% a 4% da população adulta, segundo o psiquiatra Colin Ross. Em casos extremos, os episódios podem durar até 12 horas por dia, com roteiros que se desenrolam por décadas.

Embora sonhar acordado seja normal — pesquisas indicam que 30% a 50% dos pensamentos diurnos são divagações —, o problema surge quando a fantasia se torna compulsiva e domina a vida da pessoa. "O problema surge quando a pessoa não domina mais a fantasia e a fantasia começa a dominar a pessoa", explica Eli Somer, professor emérito de psicologia clínica da Universidade de Haifa, que cunhou o termo maladaptive daydreaming.

Sinais e impactos

O devaneio excessivo frequentemente é desencadeado ou mantido por música ou atividades físicas repetitivas, como caminhar. Cerca de 80% das pessoas incorporam gestos físicos inconscientes para manter a concentração. Kyla Borcherds, por exemplo, passava horas subindo e descendo a entrada de casa com patins ou lançando uma bola contra a parede.

O tempo dedicado às fantasias leva ao isolamento social, gerando um ciclo de vergonha e culpa. Borcherds relata que, aos 40 anos, ainda estava em cargos de nível básico porque "nunca havia tentado ser promovida", preferindo a satisfação instantânea da imaginação.

Causas e associações

Estudos associam o devaneio excessivo a traumas de infância, como negligência e abusos emocionais, além de problemas de apego. Também há forte relação com neurodiversidade: em uma pesquisa com 235 adultos autistas, 43% relataram experiências de devaneio excessivo, ligadas à solidão e dificuldades de regulação emocional.

A condição compartilha características com TDAH, TOC, depressão e ansiedade, mas Somer ressalta que "sobreposição não significa similaridade". O devaneio excessivo tem "fenomenologia distinta, concentrada na fantasia narrativa imersiva".

Tratamento e recuperação

Embora ainda não seja reconhecido pelo Manual Diagnóstico de Transtornos Mentais (DSM) nem pela Classificação Internacional de Doenças (CID), as primeiras evidências clínicas são animadoras. "A psicoterapia dirigida pode ajudar, especialmente ao tratar gatilhos, imersão compulsiva, controle da atenção e vergonha", afirma Somer.

O objetivo clínico não é eliminar a imaginação, mas "restaurar a escolha, flexibilidade e controle sobre ela", para que a capacidade imaginativa sirva à vida, em vez de substituí-la.

Estratégias simples podem auxiliar: uma cliente de Wanda Fischera, diretora de pesquisa da Sociedade Internacional de Devaneio Excessivo, descobriu que não consegue sonhar acordada quando seu gato está no quarto — e passou a mantê-lo sempre ali. Maria, que preferiu não revelar o sobrenome, canalizou suas fantasias para a escrita, transformando os roteiros em rascunhos de histórias.

Borcherds, hoje moderadora de uma comunidade no Reddit com 18 mil visitantes semanais, afirma que o problema "não precisa durar para sempre". Ela celebra suas histórias internas, pois seus personagens "acreditaram em mim quando eu não acreditei em mim mesma".

Com informações de BBC News Brasil.