Um estudo do Climate Policy Initiative (CPI/PUC-Rio) em parceria com o projeto Amazônia 2030 quantificou o impacto do desmatamento da Amazônia sobre a geração de energia nas duas maiores hidrelétricas do Brasil: Itaipu e Belo Monte. Segundo a pesquisa, a perda anual de potencial energético chega a 3.780 GWh, o que representa um prejuízo superior a R$ 1 bilhão em receita para as usinas. Essa quantidade de energia seria suficiente para abastecer todo o estado de Rondônia ou cerca de 1,5 milhão de pessoas, conforme destacou Gustavo Pinto, pesquisador sênior do CPI/PUC-Rio e um dos autores do estudo.

Rios voadores e o sistema elétrico

Os chamados “rios voadores” são grandes corredores atmosféricos que transportam vapor d’água da Amazônia para outras regiões da América do Sul. O desmatamento enfraquece essas correntes, comprometendo o abastecimento de água e a estabilidade climática. No Brasil, onde a hidroeletricidade responde por 60% da geração, isso afeta diretamente o Sistema Interligado Nacional (SIN). O estudo concluiu que 17 das 20 maiores hidrelétricas brasileiras estão posicionadas na rota desses rios voadores, tornando o problema sistêmico.

Metodologia avançada

Para chegar aos resultados, os pesquisadores utilizaram dados de alta resolução, analisando cada pixel de 27 km por 27 km do território. O processamento exigiu o uso de um supercluster da Universidade de Nova York (NYU). Além disso, aplicaram técnicas avançadas de econometria para isolar o “efeito causal” do desmatamento na redução das chuvas, como explicou João Pedro Arbache, também pesquisador sênior do CPI/PUC-Rio.

Impacto sistêmico e termelétricas

Quando a falta de chuvas atinge o sistema elétrico de forma generalizada, o setor perde a capacidade de equilíbrio e é forçado a acionar usinas termelétricas, alternativa mais cara e poluente. Isso eleva o custo para o consumidor e intensifica a emissão de gases de efeito estufa, agravando a crise ambiental.

Áreas de influência e unidades de conservação

O método determina “áreas de influência” do desmatamento na Amazônia para cada usina, mesmo para Itaipu, que está a 1.000 km de distância do bioma. Os autores identificaram que muitas áreas críticas para o fornecimento de água são protegidas por Unidades de Conservação (UCs), que funcionam como guardiãs da floresta e mantêm os rios voadores ativos. Segundo Gustavo Pinto, “as UCs estão protegendo, conservando essa nossa infraestrutura natural efetivamente, que está nos provendo serviços ecossistêmicos essenciais para o nosso desenvolvimento, para a nossa estabilidade econômica, para a nossa soberania nacional”.

Expansão da pesquisa

Os pesquisadores estão expandindo a análise para outros quatro pilares da economia brasileira: agricultura, transporte hidroviário, abastecimento de água e resiliência a incêndios. Resultados preliminares já indicam efeitos da redução dos rios voadores nesses setores, conforme adiantou Gustavo Pinto. João Pedro Arbache afirmou que o objetivo é “demonstrar que o valor econômico da Amazônia para a sociedade brasileira é sistêmico e vai muito além das fronteiras do bioma”.