Um novo estudo publicado na revista Nature alerta que a combinação do desmatamento da Amazônia entre 22% e 28% da área total com um aquecimento global de 1,5 °C a 1,9 °C pode levar a mudanças irreversíveis no bioma já na década de 2040. A pesquisa aponta que, caso esse limiar seja ultrapassado, mais de 70% da Bacia Amazônica poderia se transformar em savana ou floresta degradada em poucas décadas, liberando grandes quantidades de carbono atualmente armazenado na vegetação e no solo.
Atualmente, cerca de 17% da Pan-Amazônia já foi desmatada, e projeções climáticas indicam que a temperatura global deve superar 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais nos próximos anos. Segundo os autores, o risco de atingir o ponto de inflexão aumenta à medida que o desmatamento avança e as temperaturas sobem. "Podemos dizer com segurança que, quanto mais desmatamento ocorrer, mais baixo será esse limiar de aquecimento global", afirmou Arie Staal, coautor do estudo e professor assistente na Universidade de Utrecht, na Holanda.

O limiar crítico
O artigo, liderado por Nico Wunderling, pesquisador do Instituto Potsdam para Pesquisa do Impacto Climático (PIK), na Alemanha, analisou projeções climáticas, modelagem hidrológica e transporte atmosférico de umidade. Os pesquisadores concluíram que o desmatamento entre 22% e 28%, combinado com aquecimento de 1,5 °C a 1,9 °C, cria um cenário de "ponto sem volta". "Esse limiar crítico poderia ser atingido já na década de 2040", disse Wunderling à Mongabay. Ele ressalvou, no entanto, que se as tendências de queda no desmatamento brasileiro continuarem, o ponto de inflexão pode ser adiado para meados do século.
Estudos anteriores, como os liderados por Carlos Nobre, da Universidade de São Paulo (USP), em 2016, apontavam para limiares semelhantes, com desmatamento entre 20% e 25% e aquecimento de 2 °C. Nobre, que não participou da nova pesquisa, afirmou que o artigo representa um avanço e mostra que a humanidade está "ainda mais próxima de um ponto de inflexão".

Mecanismo de degradação
A pesquisa explica que até metade da precipitação na Amazônia é reciclada pelas próprias árvores. O desmatamento em larga escala interrompe esse ciclo hidrológico, reduzindo a liberação de vapor d'água para a atmosfera e diminuindo as chuvas. A perda de umidade pode provocar secas que matam árvores a centenas de quilômetros de distância. Segundo Staal, o local do desmatamento é decisivo: a perda projetada ocorre predominantemente na região leste da bacia, próximo ao Arco do Desmatamento, contribuindo para "transições em cascata na direção do vento", com ar mais seco avançando para oeste, onde a floresta ainda está preservada.
O processo de degradação não é imediato. Wunderling explicou que, ultrapassado o limiar, a transição levaria décadas, mas o ecossistema entraria em "uma trajetória difícil de reverter". A Amazônia se tornaria "um tipo de ecossistema degradado que não consegue cumprir os serviços ecossistêmicos, como reciclagem de água, que vemos atualmente".

Consequências regionais e globais
As consequências de se atingir o ponto de inflexão seriam de longo alcance. Além da perda de biodiversidade única, haveria interrupção dos ciclos hídricos regionais e liberação de bilhões de toneladas de CO₂ retidas nas florestas e solos amazônicos. Nobre destacou que esse cenário já está em andamento no sul da Amazônia, em áreas como Rondônia e Mato Grosso, onde a estação seca se prolongou em 4 a 5 semanas por ano e as chuvas diminuíram significativamente.
Os impactos também se estenderiam a outros biomas. O Cerrado, que depende da umidade da Amazônia, seria profundamente degradado, tornando-se semiárido. "Esse é um risco enorme para a Amazônia e para além dela", afirmou Nobre.
Perspectivas de recuperação e ações necessárias
O estudo também analisou um cenário sem avanço adicional do desmatamento. Nesse caso, uma transição em grande escala só seria provável com aquecimento entre 3,7 °C e 4 °C, embora até 35% da Amazônia ainda pudesse se degradar. Para Wunderling, essa constatação indica que o sistema florestal é resiliente diante do aumento das temperaturas, desde que o desmatamento seja moderado. "Nesse sentido, é um cenário positivo, pois mostra que a crise pode ser revertida", disse.
Os autores destacam a necessidade urgente de conter o desmatamento, restaurar áreas perdidas e reduzir as emissões de carbono. Iniciativas como a promessa do Brasil de restaurar 24 milhões de hectares de floresta tropical são citadas como passos positivos. Wunderling sugeriu que pesquisas futuras determinem onde o reflorestamento traria mais benefícios para revitalizar o ciclo de umidade atmosférica. "Os efeitos negativos do desmatamento podem ser amplamente compensados pelo reflorestamento", acrescentou Staal, o que também daria tempo ao mundo para se descarbonizar.
“Precisamos realmente agir com muita rapidez para conter o desmatamento e a degradação totais, fazer uma restauração florestal maior e evitar que o aquecimento global atinja 1,8 °C. Se não fizermos isso até 2040, vamos ultrapassar o ponto de inflexão e então será impossível salvar a Amazônia.” — Carlos Nobre