Uma pesquisa conduzida pelo cientista político Jairo Pimentel, da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fesp-SP), aponta que 41% dos eleitores brasileiros sentem decepção ao votar, 9 pontos percentuais a mais do que há vinte anos, quando o levantamento começou. O estudo, realizado com 1.500 entrevistados, reflete o descontentamento generalizado com a política tradicional e deve influenciar as eleições de outubro.

Crescimento da abstenção e desalento

O índice de abstenção no primeiro turno das eleições presidenciais saltou de 17% em 2006 para 22% no último pleito, o que representa cerca de 800 mil eleitores a menos. Segundo Felipe Nunes, CEO da Quaest, a falta de engajamento será decisiva, pois o grupo de desiludidos é numericamente relevante. A professora Márcia Ribeiro Dias, da Unirio, afirma que, para a maioria, a abstenção decorre de falta de interesse, e não de uma convicção contra o voto obrigatório.

Sentimentos negativos em alta

Além da decepção, outros sentimentos negativos cresceram: a raiva subiu 12 pontos, para 28%, e o medo, 2 pontos, para 26%. Em contrapartida, a esperança caiu 24 pontos, o entusiasmo 9 e o orgulho 7. A pesquisa da Fesp não deve ser confundida com intenção de voto, mas retrata a crise de confiança no sistema político.

Perfil dos desiludidos

O desencanto predomina entre os eleitores independentes, que não se alinham a extremos, mas também está presente nos dois polos. Os mais propensos a se abster são pessoas com mais de 60 anos, baixa escolaridade e renda de até dois salários mínimos — perfil que costuma votar em candidatos de esquerda. Segundo Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva, o eleitor que busca novidade está conformado com a falta de alternativa fora da polarização e oscila entre abstenção e voto em um dos lados sem entusiasmo.

Candidatos e estratégias

Lula (PT) tem 53% de rejeição e tenta reverter a desilusão com programas como o fim da escala 6x1 e maior isenção do imposto de renda. Edinho Silva, presidente do PT, defende reformas para ampliar a participação popular. Flávio Bolsonaro (PL), com 56% de rejeição, aposta no desejo de mudança e foca em segurança pública e economia. Internamente, avaliam que os benefícios do governo perderão impacto até outubro. Nenhum dos dois é visto como novidade: Lula disputa o quarto mandato e Flávio é associado ao governo do pai, Jair Bolsonaro.

Burnout cívico e cansaço

A exposição constante a discussões políticas gerou um novo fenômeno chamado burnout cívico, definido pela pesquisadora Lilian Sendretti como uma saturação que leva ao medo de romper vínculos pessoais. Exemplos como o motorista Gabriel Henrique Américo, que deixou de discutir política com passageiros para evitar denúncias, ilustram o quadro.

Fuga dos partidos

Pesquisa da Universidade Federal do Paraná (UFPR) mostra que 73% dos entrevistados não têm simpatia por nenhum partido. O professor Renato Cervi alerta que a amplificação dos extremos dá a impressão equivocada de que são majoritários. O empresário Gerson Mazer, que se define como de extrema exceção, afirma que não votará se o segundo turno for entre Lula e Flávio Bolsonaro.

Comparação internacional

Em outros países, a desilusão impulsionou figuras antissistema como Donald Trump (EUA), Javier Milei (Argentina), Abelardo de la Espriella (Colômbia) e Nigel Farage (Reino Unido). Onde o voto não é obrigatório, a abstenção dispara. No Brasil, especialistas apontam que o debate político de alto nível e ideias inspiradoras poderiam reverter o quadro até outubro.