Carlo Ancelotti se prepara para disputar sua primeira Copa do Mundo como treinador, com pouco mais de um ano à frente da seleção brasileira. Na Data Fifa de março, nos últimos compromissos antes da lista final, o treinador italiano deixou claras suas visões para o time: é preciso uma defesa forte para conquistar o hexacampeonato.

— O Brasil para ganhar Mundial tem de ter talento, e temos, e também se defender bem. Não há outra via. Copa do Mundo ganha aquele que levar menos gols, não quem faz mais — destacou o treinador, antes de amistoso contra a Croácia.

A defesa tem sido uma incógnita do Brasil, principalmente com as dúvidas nas laterais e o desfalque de Éder Militão para a Copa do Mundo. Nos dez jogos disputados com Ancelotti até aqui, o Brasil sofreu sete gols. São três jogos consecutivos em que o setor é vazado — contra Tunísia, França e Croácia.

A máxima de Ancelotti é comum nos esportes — “ataques ganham jogos, defesas ganham campeonatos”. Mas também é um clichê. No último ano, distante do futebol, o quarterback Jalen Hurts, do Philadelphia Eagles, usou o ditado para elogiar sua equipe após o triunfo no Super Bowl 59, sobre o Kansas City Chiefs.

Mas o treinador italiano tem razão? Quando se referiu à força da defesa brasileira, também exaltou o desempenho da Seleção nos títulos mundiais de 1994 e 2002 quando, nos números, também tinha os setores menos vazados em seus respectivos torneios. A Trivela traz a seguir os números, a partir das estatísticas dos finalistas em cada uma das Copas do Mundo.

Defesa leva a melhor no histórico das Copas do Mundo

Desde 1930, quando o Uruguai recebeu a primeira Copa do Mundo, o formato da competição sofreu alterações. De 1974 em diante, cada equipe tem de jogar ao menos sete partidas para se sagrar campeã — antes disso, a seleção uruguaia chegou conquistou a Jules Rimet em 1950 com apenas quatro jogos disputados.

Ao comparar os números de cada um dos finalistas nas 22 primeiras edições da Copa do Mundo, é possível notar que as equipes com as melhores defesas costuma levar a melhor no confronto direto. Em oito ocasiões, o setor defensivo se sobressaiu na final do Mundial, contra quatro ocasiões em que o ataque foi superior. Exemplo disto é a final de 2010. Embora a Espanha, à época, fosse exaltada pelo seu poder ofensivo, marcou apenas sete gols antes da decisão — a seleção de Países Baixos, vice-campeã, foi às redes 12 vezes. Por outro lado, La Roja sofreu apenas dois gols durante todo o torneio, ambos na derrota na estreia, diante da Suíça, por 2 a 1.

Além da Espanha, França (1998), Itália (1982), Argentina (1978), Inglaterra (1966) e Uruguai (1950 e 1930) sofreram menos gols do que seus respectivos adversários na decisão — e tinham um ataque inferior, em comparação. A Argentina, em 2022, tinha média de gols sofridos idêntica à da França antes da final, e apenas um gol marcado a menos do que sua adversária. O ataque, por sua vez, se sobressaiu com a Alemanha (1990 e 2014) e Brasil (1970 e 2002). Cabe destacar que Ancelotti não está totalmente errado ao exaltar a defesa de Felipão no pentacampeonato, já que a seleção brasileira sofreu apenas quatro gols naquele torneio.

Combinação entre ataque e defesa costuma se sair melhor nas finais da Copa do Mundo

Além dessas finais já citadas, em outras sete ocasiões a seleção campeã liderava as estatísticas em gols marcados e sofridos em relação à sua adversária na final. Em 2018, na decisão mais recente, a França, com quatro gols sofridos até a final, conseguiu parar o ataque da Croácia, que havia ido às redes 12 vezes durante o Mundial. O mesmo ocorreu em 2006, com a Itália. Estatisticamente, aquela seleção italiana teve a melhor defesa de uma seleção campeã antes da final, com apenas um gol sofrido. Ao mesmo tempo, também se sobressaía ofensivamente em relação à vice-campeã França (11 a 8).

O mesmo ocorreu com Brasil (1958, 1962 e 1994), Argentina (1986) e Itália (1934). A seleção brasileira é a que mais aparece nesse critério, por exemplo — fato que reforça a necessidade de Ancelotti reforçar ambos os setores antes da Copa do Mundo.

Em outras três edições (1934, 1954 e 1974), a campeã não liderou as estatísticas ou as ofensivas antes da final. Hungria (duas vezes) e Países Baixos, respectivamente, eram superiores em relação à outra finalista, mas foram derrotadas no jogo único. O Carrossel Holandês, de Johan Cruyff, chegou à decisão com apenas um gol sofrido — igualando o feito da Itália em 2006 e da vice-campeã Alemanha em 2002 — e 14 gols marcados. Não foi páreo, no entanto, para as donas de casa, que se sagraram bicampeãs, de virada, no primeiro torneio com sete partidas até a final.

Edição | Campeã | Vice | Gols sofridos (até a final) | Gols marcados (até a final) | Quem se deu melhor na decisão?
2022 | Argentina | França | 5 x 5 | 12 x 13 | Números semelhantes
2018 | França | Croácia | 4 x 5 | 10 x 12 | Ataque e Defesa
2014 | Alemanha | Argentina | 4 x 3 | 17 x 8 | Ataque
2010 | Espanha | Países Baixos | 2 x 4 | 7 x 12 | Defesa
2006 | Itália | França | 1 x 2 | 11 x 8 | Ataque e Defesa
2002 | Brasil | Alemanha | 4 x 1 | 16 x 14 | Ataque
1998 | França | Brasil | 2 x 7 | 12 x 14 | Defesa
1994 | Brasil | Itália | 3 x 5 | 11 x 8 | Ataque e Defesa
1990 | Alemanha Ocidental | Argentina | 4 x 3 | 14 x 5 | Ataque
1986 | Argentina | Alemanha Ocidental | 3 x 4 | 11 x 6 | Ataque e Defesa
1982 | Itália | Alemanha Ocidental | 5 x 7 | 9 x 11 | Defesa
1978 | Argentina | Países Baixos | 3 x 7 | 12 x 14 | Defesa
1974 | Alemanha Ocidental | Países Baixos | 3 x 1 | 12 x 14 | Nenhum dos dois
1970 | Brasil | Itália | 6 x 4 | 15 x 9 | Ataque
1966 | Inglaterra | Alemanha Ocidental | 1 x 2 | 8 x 13 | Defesa
1962 | Brasil | Tchecoslováquia | 4 x 4 | 11 x 6 | Ataque e Defesa
1958 | Brasil | Suécia | 2 x 2 | 11 x 10 | Ataque e Defesa
1954 | Alemanha Ocidental | Hungria | 12 x 7 | 22 x 25 | Nenhum dos dois
1950 | Uruguai | Brasil | 5 x 6 | 15 x 22 | Defesa
1938 | Itália | Hungria | 3 x 1 | 7 x 13 | Nenhum dos dois
1934 | Itália | Tchecoslováquia | 2 x 5 | 10 x 8 | Ataque e Defesa
1930 | Uruguai | Argentina | 1 x 5 | 11 x 16 | Defesa

Com informações de Trivela.