Geoffroy de la Croix, jornalista e importador de vinhos, construiu sua trajetória unindo a herança familiar da Borgonha à experiência jurídica. Aos quatro anos, já observava o avô Roger, veterano das duas Guerras Mundiais, que introduzia o neto ao mundo dos vinhos com gestos econômicos e poucas palavras sobre castas e terroirs.
Os pais de Geoffroy representavam lados opostos no gosto: a mãe, herdeira do Domaine Comte Armand, tradicional propriedade da Borgonha, defendia a elegância da região; o pai, sem vinhedos, era devoto de Bordeaux. A infância também foi marcada por histórias do bisavô, o conde Abel Armand, que em 1917 recebeu uma missão secreta do governo francês para negociar uma paz separada com o Império Austro-Húngaro. As tratativas, conhecidas como “Negociações Armand-Revertera”, duraram três semanas na Suíça, mas fracassaram. Após a guerra, Abel enfrentou acusações infundadas de espionagem, e seu filho Roger moveu ação judicial para reabilitar sua memória.
Formado em Direito em Paris, com mestrado, doutorado e pós-graduação nos Estados Unidos, Geoffroy conheceu a advogada brasileira Beatriz em Nova York. O casamento na Bahia selou a mudança definitiva para São Paulo, onde passou a prestar consultoria jurídica. Insatisfeito com a rotina, decidiu trocar os pareceres pelos vinhos e fundou a importadora DelaCroix. “Na infância, eu participava das colheitas do Domaine Comte Armand com meus primos e isso me deu um outro olhar para o mundo do vinho”, recorda.
Para montar o portfólio inicial, Geoffroy contou com um sommelier que servira o ex-presidente francês Jacques Chirac. Juntos, avaliaram cerca de 600 rótulos e selecionaram apenas 10 pequenos produtores artesanais, a maioria alinhada à filosofia dos vinhos naturais e biodinâmicos. A aposta tornou a importadora precursora no Brasil, antes de o tema virar tendência global.
No início, nem o parentesco com o Domaine Comte Armand garantiu facilidades: Geoffroy não conseguiu alocação imediata das garrafas da família, devido à alta demanda. A operação começou de forma modesta, em um andar comercial em Pinheiros, crescendo organicamente pelo “boca a boca”. Hoje, a importadora tem um espaço nos Jardins, que também funciona como restaurante em eventos e aos sábados.
Geoffroy viaja regularmente entre Brasil e França para manter contato com o Domaine Comte Armand, onde participa de degustações. Recentemente, acompanhou a transição de comando técnico, com a escolha da enóloga australiana Jane Eyre. A DelaCroix anuncia a chegada de dois novos produtores da Borgonha: Domaine Castagnier e Domaine Buisson-Charles, cujos vinhedos são vizinhos ao Comte Armand.
Entre os desafios atuais, Geoffroy confessa o desejo de levar as filhas para vivenciar as colheitas na Borgonha, replicando a imersão que teve na infância. Também planeja abrir um restaurante.
Com informações de CartaCapital.