Davi Alcolumbre, presidente do Senado, consolidou-se como um dos articuladores mais influentes de Brasília. Nesta quarta-feira (29), liderou a rejeição do plenário à indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal, uma derrota inédita para o presidente Lula desde o século XIX. Aos 52 anos, o senador amapaense transita entre a imagem de bonachão e a de operador político implacável.
O bonachão
Quem convive com Alcolumbre o descreve como alguém que aprecia boa comida, boa bebida e música alegre. Na juventude, após o expediente na loja da família, Shalom Autopeças, promovia festas na calçada com som automotivo. Na Câmara dos Deputados, onde cumpriu três mandatos (2003-2015), escapava das sessões para confraternizar em restaurantes como o Dom Francisco. No Amapá, gravava vídeos dançando brega e tecnobrega para divertir os colegas.
Quando eleito presidente do Senado pela primeira vez, em 2019, agradeceu o apoio com abraços e beijos nas mãos e testas dos aliados. “Ele visita meu gabinete e se deita no sofá”, relata o senador Plínio Valério (PSDB-AM). “Você vai ficar com raiva do cara que te abraça e beija sua mão?” Após um desentendimento com uma senadora, Alcolumbre apareceu em um evento do filho dela e entrou em campo para jogar futebol. “Ele corria de um lado para o outro. É uma coisa que alegra, que gera simpatia”, diz o ex-senador Antonio Anastasia.
Comerciante de origem, Alcolumbre gosta de atender pedidos. Certa vez, intercedeu junto ao Ministério da Educação para resolver a licença-maternidade de uma assessora. Em outra ocasião, distribuiu canetas de Mounjaro, medicamento para emagrecer que ainda não circulava livremente no Brasil e custava mil reais a unidade, a colegas que lutavam contra o peso.
O outro lado
Há, porém, um Davi Alcolumbre que usa o poder como ferramenta de pressão. Ao alto funcionário do MEC com quem tratou da licença-maternidade, disse: “Vai ser ruim para você negar um pedido do vice-líder do governo, em pleno mês das mulheres”. As canetas Mounjaro, segundo o portal UOL, eram presente do empresário Roberto Augusto Leme da Silva, o Beto Louco, foragido da Justiça por fraudes no mercado de combustíveis e suspeito de ligações com o PCC.
Alcolumbre iniciou a carreira no PDT, migrou para o PFL (depois DEM, hoje União Brasil) e, na esteira da onda conservadora de 2018, ascendeu. Na Câmara, seu nome apareceu em gravações da Polícia Federal sobre definição de valores de emendas para obras com licitações fraudulentas — a investigação não avançou. Em 2013, foi citado em interceptações com o doleiro Fayed Traboulsi em esquema de lavagem de dinheiro e desvios de fundos de pensão; as provas foram anuladas pelo STF.
Reportagem do jornal O Estado de S. Paulo revelou que Alcolumbre usava toda a verba de combustível do gabinete (9,3 mil reais mensais, em valores atualizados) em postos do tio Salomão, prática proibida por lei. O gabinete argumentou que a família era dona de cerca de 70% dos postos do Amapá. Ainda hoje, alguns postos da família só aceitam dinheiro vivo.
Na Câmara, um de seus primeiros projetos foi batizar o Aeroporto Internacional de Macapá com o nome de outro tio, Alberto Alcolumbre. Sua principal ocupação, porém, era servir de mensageiro do ex-presidente José Sarney, mentor e aliado no Amapá. Alcolumbre frequentava ministérios e gabinetes resolvendo demandas de Sarney, e era convidado para reuniões e jantares na casa do ex-presidente, onde observava os cardeais da política. Seu maior ídolo, já falecido, é Antônio Carlos Magalhães.
A ruptura com Sarney
Em 2014, Sarney, então com 84 anos, enfrentava vaias e insegurança quanto à reeleição. Alcolumbre, já com conexões próprias, anunciou em jantar no restaurante Piantella que se candidataria ao Senado contra “o velho Sarney”. Inicialmente tratado como piada, o movimento ganhou força. Sarney lançou Gilvam Borges (PMDB) e pediu que Alcolumbre retirasse a candidatura. Ele recusou. “As pessoas gostavam quando o Davi ia confraternizar na casa do Sarney. Ele entrava e já queria tomar conta da festa”, lembra Gilvam Borges. “Ele também queria fazer contribuições, mas os bispos nem sempre deixam, né? Aí ele quis se tornar bispo.”
A uma semana da eleição, Alcolumbre recebeu o voto útil da esquerda, sobretudo da família Capiberibe (PSB), que queria impedir Sarney. Venceu Gilvam Borges e deixou Sarney ressentido. No mesmo pleito, soube que Camilo Capiberibe estava com poucos recursos para o segundo turno ao governo estadual. Alcolumbre ligou para um empresário de São Paulo, que ofereceu 10 milhões de reais com a condição de que, se eleito, Capiberibe direcionasse contratos da Secretaria de Educação para empresas indicadas por Alcolumbre. Capiberibe recusou e perdeu a eleição.
Investigações e arquivamento
Na campanha ao Senado, Alcolumbre declarou ter gasto 135 mil reais em gasolina nos postos do tio Salomão — volume suficiente para dar doze voltas ao redor do planeta. O Ministério Público apontou “ausência de comprovantes bancários” e uso de “notas fiscais frias”, parte delas emitidas por empresas da família. A retransmissora do SBT, TV Amazônia Ltda., de propriedade do tio José, pagou gráfica que produziu material clandestino de campanha. A afiliada da Band TV, dirigida pelo irmão Josiel, também encomendou material clandestino e emitiu nota após o pleito.
O Tribunal Regional Eleitoral do Amapá negou o pedido de cassação do MDB de Sarney, por não comprovar que o senador sabia dos crimes. O caso chegou ao STF, onde tramitou sob sigilo até ser arquivado em janeiro deste ano. A defesa de Alcolumbre sustenta a legalidade dos gastos.
Gilvam Borges usa o verbo regional “mundiar” para descrever o comportamento do adversário: “Quando tu vês uma cobra na mata cercando a presa, ela fica rondando e rondando os bichos até deixá-los zonzos. Aí, ela ataca. O Davi mundia bem.” Mundiou Sarney, chegou ao Senado e, com a posse de Jair Bolsonaro, percebeu que havia mais degraus a galgar. Desde então, continua subindo.
Com informações de Revista Piauí.