Na noite de segunda-feira, o jornalista Mario Magalhães e a ilustradora Bruna Barros se encontraram para um passeio pelo centro de São Paulo. Bruna, que ilustra a coluna de Mario, havia convidado o cronista para conhecer seu apartamento, localizado na rua Helvétia, entre a avenida São João e a praça Princesa Isabel. Na portaria, Mario avistou um anão que, segundo Bruna, é campeão de pingue-pongue.

O pai de Bruna, vindo de Timóteo (MG), ajudou na reforma do imóvel, que durou meses. O apartamento conta com um terraço, estúdio, plantas e pássaros desenhados nas paredes pela ilustradora. Mario cobiçou uma onça artesanal da Ilha do Ferro exposta no local.

Mario levou pó de café de presente. Bruna sugeriu um passeio a pé, o que chamou de "fare una passeggiata", para apreciar a energia caótica e multicultural da região. O caminho incluiu a rua Barão de Limeira, onde fica a sede da Folha. Mario contou como era a redação no final dos anos 1970, quando sentava ao lado de Angeli e Laerte — este último com um bigode mexicano e militante do Partido Comunista. Angeli, por sua vez, era fã da Esquadrilha da Fumaça.

Bruna, que estudou artes plásticas em Veneza e morou nos bairros Dorsoduro e próximo à praça San Marco, chamou atenção para a arquitetura dos prédios antigos, hoje degradados. Mario sugeriu o restaurante Casserole, mas estava fechado. Bruna indicou então o Biyou'Z, restaurante africano perto da praça Júlio Mesquita.

No Biyou'Z, pediram bananas da terra de entrada e jiló recheado. A garçonete, vinda de Camarões, falava pouco português. Mario experimentou fumbua — folha do Congo com pasta de amendoim, azeite de dendê, mandioca e galinha — e, ao colocar meia gota de pimenta, sentiu ardor intenso, amenizado com cerveja. Após o jantar, foram até o Vale do Anhangabaú para uma aula aberta de Charme, mas a atividade já havia terminado. Segundo Bruna, a dança tem origem em bailes cariocas, frequentados sobretudo por negros, com coreografias de grupo, sensuais e sincronizadas.

Em seguida, caminharam até a rua Basílio da Gama para conhecer o antigo restaurante Almanara, onde avistaram o cantor Supla — ou um sósia — em uma das mesas. Combinaram de se encontrar na noite seguinte para assistir à ópera "Intolleranza 1960" no Theatro Municipal.

No dia seguinte, Bruna chegou com um visual despojado-chique. Durante a ópera, Mario comentou sobre versos que atribuiu a Bertolt Brecht, arrependendo-se em seguida do que chamou de "mansplaining". Na saída, Mario disse ter ficado aflito com a cena de uma moça ruiva que caía no chão como um corpo morto. Bruna sentiu tontura ao ver pessoas girando sem parar por cerca de dez minutos.

Após a ópera, foram a um restaurante francês escolhido por Mario, com cortinas bordadas, guardanapos de pano e painéis de madeira. Entre os clientes, avistaram a apresentadora Silvia Poppovic, que se aproximou da mesa. Mario comeu escargot pela primeira vez e lembrou da infância, quando sua mãe assistia ao programa de Poppovic enquanto tomava café e comia bolo.

Com informações de Folha — Ilustrada.