Um relatório divulgado em abril pela organização Amazon Watch, em parceria com 15 grupos indígenas e uma rede de jornalistas independentes, revela que o crime organizado já afeta 32% dos territórios indígenas na Amazônia. O estudo, intitulado “Amazônia sob ataque: como o crime e a militarização ameaçam os povos indígenas”, foi apresentado no Fórum Permanente da ONU sobre Questões Indígenas, em Nova York, e abrange sete estudos de caso em cinco países: Colômbia, Equador, Peru, Brasil e Venezuela.

De acordo com o documento, 67% dos municípios amazônicos são impactados por organizações criminosas, que atuam em atividades como garimpo ilegal de ouro, tráfico de drogas, extração ilegal de madeira, tráfico de animais silvestres, contrabando de combustíveis e tráfico de pessoas. Essas economias ilícitas operam de forma interconectada, compartilhando rotas, infraestrutura e proteção armada. Como consequência, pelo menos 296 ativistas ambientais foram assassinados na Amazônia desde 2012, sendo Colômbia e Brasil os países mais perigosos para defensores da natureza.

Impactos nos territórios e nas comunidades

O relatório aponta violações sistemáticas aos direitos territoriais, violência contra jovens e mulheres, danos à saúde e deslocamento forçado. Especialistas destacam que o controle exercido por grupos armados restringe a mobilidade e fragmenta a vida comunitária, comprometendo a autogovernança indígena. “Muitas vezes, a defesa do território tem um alto preço, incluindo ameaças e violência”, afirma o texto.

Raphael Hoetmer, diretor do Programa da Amazon Watch para a Amazônia Ocidental e um dos autores, afirmou à Mongabay que a resposta estatal baseada na militarização e na repressão tende a piorar a situação. “Ao optar pela militarização, eles acabam se apoderando dos territórios e gerando outras formas de violência e controle, em vez de fortalecer as respostas dos próprios povos indígenas”, disse.

Violência contra mulheres, crianças e adolescentes

O estudo enfatiza o aumento da violência de gênero e a exploração de menores. Jackeline Odicio, presidente da Federação das Mulheres Kakataibo (Femuka), no Peru, relatou: “O estupro de crianças indígenas, a gravidez na adolescência, a prostituição e o recrutamento: tudo isso afeta nossos territórios. As consequências são muito graves.” O documento classifica esses abusos como “enraizados em desigualdades estruturais de gênero e em padrões históricos de privação, agora agravados pela expansão da governança criminosa”.

Hoetmer explicou que a falta de alternativas econômicas leva muitos jovens a se envolverem com o crime. “Trabalhar no cultivo de coca ou no garimpo é a única oportunidade que eles têm”, disse, acrescentando que as restrições de movimento impedem o acesso a locais sagrados e rotas territoriais essenciais.

Casos analisados país a país

Os sete estudos de caso cobrem diferentes realidades:

  • Brasil: O território Munduruku tornou-se foco de garimpo ilegal, com presença do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV). Na fronteira com o Peru, os povos do território Yurúa-Juruá-Alto Tamaya enfrentam ameaças de tráfico de drogas, desmatamento e cultivo de coca.
  • Colômbia: O território Putumayo, na tríplice fronteira com Equador e Peru, é epicentro de economias ligadas à cocaína, com atuação dos Comandos da Fronteira (CDF) e dissidências das Farc.
  • Equador: O povo Kichwa, em Napo, sofre com mineração ilegal de ouro e atividades criminosas de grupos como Los Lobos e Los Choneros.
  • Peru: O povo Kakataibo enfrenta pressão de tráfico de drogas, extração de madeira e mineração ilegal. O território Wampís sofre com as mesmas atividades, com grupos como Trujillanos e Huanuqueños.
  • Venezuela: Terras dos povos Pemón, Kariña, Akawayo, Piaroa e Warekena, ricas em ouro e coltan, são controladas pelo Exército de Libertação Nacional (ELN) e dissidentes das Farc.

Josefina Tunki, vice-presidente do Conselho Diretor da Rede Ticca na América Latina, destacou o deslocamento de populações e a poluição dos rios. “Na Cordilheira do Condor, os rios estão poluídos. E nós, líderes, resistimos para proteger a biodiversidade, mas somos perseguidos para sermos silenciados”, afirmou.

Respostas estatais e alternativas

O relatório critica as operações militares e policiais, que, segundo os autores, não enfrentam as causas estruturais das economias ilícitas e frequentemente resultam em mais violência. Ricardo Soberón, ex-presidente da Comissão Nacional de Desenvolvimento e Vida sem Drogas (Devida) do Peru, disse que “o discurso com que muitas figuras descrevem a expansão das economias extrativistas ilícitas contribui para uma visão criminalizadora ou militarizada”.

Hoetmer defende uma abordagem centrada nos direitos indígenas. “Os povos indígenas devem ser vistos como parceiros estratégicos fundamentais no enfrentamento do problema”, afirmou. Ele citou as guardas indígenas como exemplo de mecanismo de autoproteção. Herlin Odicio, vice-presidente da Orau no Peru, explicou: “Dentro do nosso território, a única opção que temos é nos proteger para sobreviver. Trabalhamos com parceiros para usar drones e câmeras, mas precisamos de mais recursos.”

O relatório conclui que o fortalecimento da autodeterminação e a garantia de direitos são essenciais para combater o crime organizado, mas que os povos indígenas não podem agir sozinhos: precisam de apoio estatal efetivo.