A região conhecida como cracolândia, no centro de São Paulo, passa por uma transformação nos últimos anos, após décadas de degradação e abandono. Medidas coordenadas entre o prefeito Ricardo Nunes e o governador Tarcísio de Freitas têm reduzido a presença massiva de usuários de drogas e a criminalidade na área, que abrange os bairros da Luz, Santa Ifigênia e Campos Elíseos. No entanto, moradores e comerciantes históricos, como o empresário José Roberto Issa Cheda, de 74 anos, que chegou ao local em 1978, ainda mantêm cautela diante de um passado de promessas não cumpridas.

Histórico de decadência

Nos anos 1970, a região já enfrentava problemas com a expansão desordenada da metrópole, sendo conhecida como “boca do lixo” devido à marginalidade, boemia e prostituição. Na década de 1990, surgiu o termo “cracolândia”, com os chamados “fluxos” – aglomerações de usuários em busca de drogas – tornando-se a maior cena de uso aberto do país. O crime organizado, especialmente o PCC, passou a dominar um ecossistema ilegal que incluía tráfico, furtos, invasões e homicídios. A ausência do poder público agravou o cenário. “A gente sempre foi abandonado”, relembra Cheda.

Medidas recentes e resultados

A estratégia atual combina monitoramento permanente, ações policiais e tratamento de dependentes. Em maio de 2025, as polícias Civil e Militar e a Guarda Civil Metropolitana realizaram operações para prender traficantes e fechar imóveis invadidos usados como depósitos de drogas. Outra ação importante foi a desocupação da Favela do Moinho, dominada pelo PCC, que servia como base de distribuição de entorpecentes.

Os dependentes químicos foram encaminhados para instituições de saúde, famílias ou, no caso de pendências judiciais, para a polícia. A prefeitura monitora diariamente a movimentação de usuários com o sistema Smart Sampa, que conta com mais de 50 mil câmeras em toda a cidade. Qualquer aglomeração é alvo de intervenção imediata.

Os resultados aparecem nos números de furtos: 5.155 ocorrências nos primeiros quatro meses de 2018 caíram para 2.339 no mesmo período de 2026. Apesar da queda expressiva, o volume ainda é alto, e a insegurança persiste. O empresário Alexandre Farias Fatti, de 49 anos, que chegou em 1995, viu a situação piorar e depois melhorar: “Vi a situação piorar ao ponto de pensar que não teríamos mais solução”.

Projetos para o futuro

Para consolidar a recuperação, o governo estadual planeja transferir sua sede para a região, onde ficava o Palácio dos Campos Elíseos até 1965. “Só há uma solução: retomar o território. E para isso vamos trazer o governo inteiro para o centro”, afirma o secretário especial de Projetos Estratégicos, Guilherme Afif Domingos. As desapropriações devem começar em 90 dias, afetando cerca de 600 famílias.

A prefeitura, por sua vez, aposta no Boulevard São João, um polo cultural e turístico na Avenida São João, com painéis de LED e requalificação urbana, apelidado de “Times Square paulistana”. A iniciativa, no entanto, está suspensa pela Justiça, que analisa possível desrespeito à legislação urbanística.

Cautela dos moradores

José Roberto Issa Cheda, que participou de manifestações e audiências públicas, reconhece a melhora: “Melhorou muito”. Mas o sentimento predominante é de esperança misturada com receio de que o caos retorne, como já ocorreu em tentativas anteriores. A reportagem da revista Veja, na edição de 19 de junho de 2026 (nº 3000), conclui que o cenário de degradação se dissipou, mas a confiança plena ainda está por vir.