O tema da corrupção voltou a ganhar destaque na agenda pública brasileira, impulsionado por dois megaescândalos recentes: os casos envolvendo o INSS e a Master. De acordo com análise do professor da Universidade Federal de Pernambuco e ex-professor visitante do MIT e da Universidade Yale, os desdobramentos desses casos ainda estão em curso, mas devem marcar intensamente as eleições. Além disso, os sucessivos escândalos relacionados a emendas orçamentárias também reverberam a questão.

Segundo o texto, haverá uma intensa disputa de narrativas sobre o envolvimento em corrupção, que afetará poucos setores muito polarizados, mas incidirá nos demais. Mais importante, o tema alimenta o sentimento público quanto à necessidade de mudança de rumo.

Efeito mar de lama e heterogeneidade

A sensação de corrupção sistêmica pode gerar o chamado efeito mar de lama: se todos os candidatos são corruptos, a corrupção perderia importância. A cientista política Nara Pavão (UFPE) encontrou este efeito em trabalhos realizados no Brasil. No entanto, pesquisas com métodos experimentais aplicadas na Argentina, no Chile e no Uruguai qualificaram essa conclusão: mesmo quando expostos a uma situação de corrupção sistêmica, os eleitores punem nas urnas o comportamento corrupto de agentes públicos eleitos.

O texto aponta que a corrupção associada a obras é menos rejeitada, e o velho trade-off "rouba mais faz" captura parte da dinâmica subjacente à psicologia do voto. Também o hiperpartidarismo e a polarização mitigam o impacto negativo da corrupção, mas não o eliminam. Muitas vezes, o efeito médio da corrupção não é grande, mas há forte heterogeneidade nas respostas. O efeito varia muito entre os grupos de eleitores, sendo sempre muito mais intenso entre os eleitores voláteis — grupo crucial em contextos competitivos.

Corrupção como critério de desempate

Embora a corrupção não seja o critério definidor — o "deal breaker", no jargão — para a maioria do eleitorado, ela faz parte do processo complexo da psicologia do voto, que não ocorre em um só momento. Segundo o jargão, este processo é formado de "heurísticas sequenciais". Pesquisas sobre processos decisórios em contextos eleitorais mostram que o eleitor pode descartar inicialmente candidatos por algum outro fator e, em um segundo momento, utilizar a corrupção como desempate.

Interação com economia e segurança

Corrupção, economia e segurança pública são temas que interagem entre si e têm um efeito multiplicativo. Há fortes evidências de que a tolerância quanto à corrupção é maior quando a economia vai bem, e vice-versa. O texto ressalta que interessa a economia tal qual percebida pelos eleitores, e não os indicadores econômicos. Essa percepção sofre muitos vieses, o mais importante deles decorrente da polarização. Processo similar ocorre quando a corrupção está entrelaçada com a criminalidade violenta.

Temas da agenda pública sobre os quais há consenso negativo, como corrupção ou criminalidade, criam sentimento de mudança. Questões sobre se o país está indo na direção errada são fundamentais. Quando estes temas dominam o debate, engendram um sentimento de mudança que penaliza os incumbentes.

Com informações de Folha — Poder.