O Comitê de Política Monetária (Copom) reúne-se nesta terça e quarta-feira (16 e 17 de junho) para deliberar sobre a taxa Selic, atualmente em 14,5%. A decisão pode ser um novo corte de 0,25 ponto percentual, levando a Selic a 14,25%, ou uma pausa no ciclo de flexibilização, mantendo os juros no patamar atual. O cenário de avaliação inclui indicadores de inflação, atividade econômica e fatores externos.
Cenário macroeconômico e pressões inflacionárias
A inflação de maio foi registrada em 0,58%, e o acumulado em 12 meses superou o teto da meta. A análise do Copom considera a visão de longo prazo, o ritmo de alta dos preços e os dados robustos de atividade econômica. No front externo, o conflito no Oriente Médio adiciona incertezas sobre os preços de insumos, enquanto a reprecificação dos juros nos Estados Unidos abre a possibilidade de reversão na trajetória de queda do dólar.

Para Paulo Vicente, professor associado da FDC, a palavra que define a reunião é “tensão”. Ele afirma que “trata-se de uma reunião marcada pela coexistência de pressões inflacionárias relevantes, sobretudo ligadas aos combustíveis e ao cenário internacional, ao mesmo tempo em que cresce a atenção dos agentes econômicos para os efeitos do ciclo eleitoral sobre as expectativas”. Vicente ressalta que o Banco Central precisará sinalizar firmeza no combate à inflação sem perder de vista os riscos para a atividade econômica.
Divergências entre analistas: pausa ou corte residual?
Parte dos agentes econômicos avalia que o Copom deve optar pela manutenção. Cassio Viana de Jesus, diretor de investimentos e negócios da Pilar Capital, considera a combinação de vetores que afetam a decisão: expectativa de inflação acima do teto da meta, petróleo pressionado, piora na leitura fiscal e câmbio sensível. “Cortar juros agora poderia transmitir ao mercado uma mensagem de tolerância maior com a inflação, justamente quando as expectativas estão se deteriorando”, afirma. Luis Felipe Vital, chefe de estratégia macro e dívida pública da Warren Investimentos, classifica o momento como “ponto crítico” na condução da política monetária e defende a pausa, citando a “indefinição a respeito da duração, extensão e desdobramentos” do conflito no Oriente Médio. “Há de se observar que foram raros os casos na história recente do Brasil em que a autoridade monetária tomou decisão semelhante, ou seja, cortou juros enquanto as medidas de inflação corrente e as expectativas se deterioravam rapidamente em um ambiente de elevada incerteza”, escreve Vital em relatório. Fábio Murad, sócio e fundador da Ipê Avaliações, também projeta manutenção em 14,5%, citando riscos como crédito sustentando a demanda, efeitos climáticos sobre alimentos e possível saída de capital estrangeiro.
Em contrapartida, outros especialistas projetam um corte residual. Leonardo Costa, economista do ASA, avalia redução de 0,25 ponto percentual, para 14,25%, sinalizando o encerramento do ciclo. Arnaldo Lima, economista da Polo Capital, também espera corte de 0,25 p.p., argumentando que o choque de oferta provocado pela guerra aparenta ser temporário. Rafael Rondinelli, economista da MAG Investimentos, reforça a previsão de queda de 0,25 p.p., destacando que “o atual nível de juro real, bastante restritivo, permite a continuidade do ciclo de queda no ritmo atual”. O Itaú, em relatório assinado pelo economista-chefe Mario Mesquita, vê espaço para “um novo, modesto, corte de juros na decisão de junho”, de 0,25 p.p., deixando “o futuro em aberto” com comunicação de que o espaço para calibração adicional é incerto. A equipe do J.P. Morgan defende o corte sob o argumento de que a política permanece restritiva e atua como seguro contra aperto excessivo.
Impactos da política restritiva na economia
A manutenção dos juros em patamares elevados gera consequências diretas na atividade produtiva. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) avalia que a política monetária permanece excessivamente restritiva, com taxa real em torno de 10% ao ano, o dobro da taxa neutra estimada pelo Banco Central. A entidade aponta que interromper a queda da Selic configura um erro para a atividade produtiva, e que o custo da restrição de crédito resultou em níveis recordes de endividamento corporativo e inadimplência. Para a CNI, os juros elevados representam a “corrosão da base produtiva e das indústrias de menor porte, que sustentam o emprego e o investimento”.
Projeções para o fim de 2026
As projeções de mercado para a Selic e o IPCA no encerramento de 2026 refletem a reprecificação dos ativos. Leonardo Costa, do ASA, revisou a projeção da Selic para 14,25% e inflação em 5,5%. Rafael Rondinelli, da MAG Investimentos, projeta Selic a 14% e inflação em 5,4%. A Warren Investimentos projeta manutenção dos juros na reunião atual e tom neutro na comunicação, podendo retomar cortes na última reunião do ano, com Selic terminando em 14,25%. A XP alterou seu cenário-base para Selic em 14% e IPCA em 5,3%. O BTG Pactual ajustou a estimativa do IPCA de 4,9% para 5,3%, incorporando o choque do petróleo e riscos climáticos do El Niño, e projeta corte de 0,25 p.p. nesta reunião, o último do ano, levando a Selic a 14,25%.
A comunicação do Copom assume papel central na ancoragem de expectativas. Cassio Viana de Jesus atribui a palavra “cautela” à reunião, definindo-a como atitude defensiva e de preservação de credibilidade. O mercado aguarda a decisão e o tom do comunicado para calibrar as próximas projeções.