Tal qual um craque da bola fazia suas firulas, o professor de Português buscava seus lances de efeito com as palavras. Durante a aula, criticava o silêncio do treinador na distante Copa de 1978. Em vez de comentar “Claudio Coutinho não dá entrevista”, batia de trivela: “Coutinho está fechado em copas”. Uma expressão do tempo dos cassinos para dizer que alguém não tá pra conversa.

Na prova final, o mestre ameaçava: “Quero todos fechados em copas, quem ficar de cochicho, leva cartão vermelho!”

O treinador Coutinho e o rígido professor já se mudaram para outros campos e, sobreviventes que somos, nos vemos abertos pra mais uma Copa, dessa vez a maior de todas.

Não há folga diante da enxurrada de jogos. São 48 seleções.

Nos últimos dias, em uma passagem pelo Rio de Janeiro, descobri que não tenho pela frente apenas uma Copa, são duas.

Uma é a Copa do Mundo, a da FIFA.

Outra é a Copa do Rio, a Copacabana.

É sobre essa que desejo escrever.

Copacabana, que os mais íntimos chamam simplesmente de Copa, são muitas. Tantas que é até difícil saber por onde começar. Elejo a beira mar, de azul infinito.

O tapete de pedras portuguesas é ponto de encontro da cidade com o mundo. Lá, saudamos o ano-novo, vibramos com os shows de música, experimentamos o cuscuz do seu Miguel.

A simplicidade dos ambulantes e os apartamentos milionários ficam frente a frente. Da varanda do hotel Copacabana Palace ou de uma laje no morro do Cantagalo, nossos olhos piscam como os de um fotógrafo diante da cena que não podemos perder.

Nasci e fui criado em Vila Isabel, um bairro bem distante de Copacabana. Cruzava a cidade e contornava os morros por um mergulho salgado, uma sessão de cinema, um sundae que só existia nas sorveterias chiques daquela região.

Minha avó Lili quando recebia o pagamento me levava para almoçar em um restaurante de Copacabana. O Lucas, de paredes revestidas de madeira, tinha aquário de peixes coloridos e garçons de gravatas borboleta e guardanapos de linho sobre o braço.

Fiz tanta propaganda que meu pai passou a levar a família inteira para almoçar lá uma vez por mês. Já no primeiro domingo surgiu uma afinidade entre meu pai e um garçom de testa larga e memória invencível.

Com avós, pai e mãe, mais meus irmãos e eu, a mesa era de 7. Na ânsia de fazer a melhor escolha, pedíamos mudanças nos pratos. Todos falavam ao mesmo tempo. Meu pai traduzia a balbúrdia.

– O filé Osvaldo Aranha pode vir com batata palito em vez da portuguesa?

– No bacalhau dá para trocar a azeitona pelo ovo cozido?

– O milanesa dos garotos tem jeito de vir dividido? Para o menor, em vez de arroz com feijão é purê de batata.

– Ah, a água da minha senhora é sem gelo. Meu chopp com colarinho e o da minha sogra sem. O dela é na tulipa, o meu – o senhor me faça o favor – é na caldereta.

– Não esqueça o cinzeiro, por gentileza.

Compenetrado, o homem balança a cabeça. Meu pai tem uma última pergunta.

– Não vai anotar os pedidos?

O garçom olha por cima dos óculos e pede licença.

Naquela vez e em todas as outras a memória inapelável virou assunto de família. Nunca um prato veio errado e jamais “seu Odir” anotou qualquer pedido.

Muitos anos depois, no mesmo restaurante Lucas, na esquina da Souza Lima com a avenida Atlântica, quase posto 6, o jornalista Paulo Henrique Amorim almoça com sua filha. Ao olhar em volta vê na mesa do fundo Oscar Niemeyer, que trabalha ali perto.

Paulo Henrique cumprimenta o arquiteto mais conhecido do Brasil e pergunta a ele o que a filha tem timidez de indagar.

– Seu Oscar, em que o senhor se inspirou para desenhar o Congresso Nacional com aquelas duas meias luas?

Oscar chama seu garçom preferido.

– Odir, por favor, traz uma laranja.

– Sim senhor.

Oscar corta a laranja em duas metades e pousa ambas no prato.

– É uma pra baixo e outra pra cima, entendeu?

Paulo e a filha ficam extasiados e pisando em nuvens se despedem do novo amigo.

Minha caminhada termina na esquina do Lucas. O restaurante não existe mais. Paulo Henrique, Oscar e Odir também pediram a conta.

Copacabana é símbolo de um Rio e de um Brasil que não admitimos esquecer.

Copacabana, Copa bacana.

*Luis Cosme Pintoé autor de “Acabou, mas continua”, da editoraCachalote.

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum.