Em artigo publicado no Brasil de Fato, o vereador e presidente da Câmara Municipal de Pesqueira (PE), indígena do povo Xukuru do Ororubá, analisa a relação entre futebol e colonialismo. O autor, que é advogado, mestre em Antropologia Social e fundador da Ororubá Filmes, argumenta que a Copa do Mundo e o futebol foram e continuam sendo instrumentos de influência cultural dos colonizadores.

O texto cita o jogador Clarence Seedorf, nascido no Suriname em 1976, apenas um ano após o país deixar de ser colônia da Holanda. Segundo o autor, a trajetória de Seedorf simboliza um movimento que se repete há séculos: antes, os impérios europeus extraíam ouro e especiarias das colônias; hoje, extraem talentos humanos que servem a projetos de poder europeu. Seedorf ainda criança mudou-se para a Holanda, onde se tornou ídolo da seleção local. O artigo destaca que a camisa laranja da Holanda não tem relação com a bandeira oficial (vermelha, branca e azul), mas é uma homenagem à Casa de Orange, figura central na independência contra os espanhóis.

Outro caso abordado é o de Zinedine Zidane, filho de argelinos, que se tornou o rosto da França campeã mundial em 1998. O autor lembra que, dez anos antes do nascimento de Zidane, a França ainda promovia guerra colonial contra a Argélia. Na época, jogadores argelinos abandonaram clubes e a seleção francesa para formar o time da Frente de Libertação Nacional (FLN), uma seleção não oficial que viajava o mundo para chamar atenção para a independência argelina. Para o autor, o futebol ali se tornou ferramenta de resistência anticolonial.

O artigo também menciona a seleção francesa campeã de 2018, com jogadores como Mbappé (filho de pai camaronês e mãe argelina), Pogba (origem guineense) e Kanté (filho de imigrantes do Mali). Segundo o texto, a seleção francesa carrega para o campo histórias de colonização e diáspora africana, refletindo a política de imigração e as feridas coloniais não cicatrizadas.

Portugal é citado como exemplo de uso explícito do futebol como ferramenta colonial. Durante o regime colonial, o esporte era incentivado em colônias como Angola e Moçambique para reforçar a ideia de unidade entre metrópole e colônias. O autor destaca Eusébio, nascido em Moçambique, transformado em símbolo do sucesso português enquanto seu povo lutava pela independência.

O autor conclui que o futebol nunca se espalhou de forma neutra e que a Copa do Mundo carrega histórias de migração, desigualdade, conflitos políticos e identidade. A série de textos proposta pelo autor pretende discutir essas questões, partindo da Copa como ponto de partida para dar visibilidade a temas sociais, culturais e políticos.

Com informações de Brasil de Fato.