A Copa do Mundo de 2026, que será disputada em 16 cidades dos Estados Unidos, México e Canadá, ocorre em um momento de tensão nas relações diplomáticas entre os três países-sede. O torneio, que pela primeira vez será realizado em três nações, expõe desavenças em áreas como comércio, migração e segurança.
Em dezembro de 2024, os líderes dos três países posaram para uma selfie com o presidente da Fifa, Gianni Infantino, durante o sorteio dos grupos em Washington DC. No entanto, a coesão demonstrada na ocasião contrasta com os atritos recentes, intensificados desde o retorno de Donald Trump à Presidência dos Estados Unidos, em janeiro de 2025.
Trump tem enfatizado a posição dos EUA como potência dominante no continente, o que gerou reações do México e do Canadá. Os dois países, principais parceiros comerciais dos americanos, foram alvos das tarifas de importação impostas por Trump. O Canadá respondeu retirando bebidas americanas das prateleiras e reduzindo viagens ao sul, enquanto o México enfrenta críticas por supostamente permitir a entrada de investimentos chineses na América do Norte.
Segundo Carlo Dade, diretor de política internacional da Universidade de Calgary, no Canadá, os problemas com os EUA também prejudicaram as relações entre Canadá e México. O Canadá foi acusado de "trair" os mexicanos ao apoiar acusações de que o México servia de porta de entrada para investimentos chineses. O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, busca remediar a situação com o México enquanto tenta diversificar o comércio do país.
A logística do torneio também preocupa. Com torcedores viajando entre os três países, o reforço dos controles de imigração dos EUA pode criar dificuldades. Os receios americanos com a segurança, amplificados pela guerra contra o Irã, aumentam o potencial de incidentes diplomáticos.
Lindsay Sarah Krasnoff, professora de esporte global da Universidade de Nova York, lembra que a Copa do Mundo Feminina de 2023, na Austrália e Nova Zelândia, teve resultados positivos, mas o torneio masculino de 2002, entre Japão e Coreia do Sul, foi considerado um "saco de gatos". "O evento não prejudicou as relações bilaterais, mas é considerado historicamente como uma espécie de empate", afirmou.
A Fifa expressou esperanças no modelo trinacional. "É um momento em que três países e todo um continente afirmam em conjunto: 'Estamos unidos para receber o mundo e oferecer a maior, melhor e mais inclusiva Copa do Mundo da Fifa já realizada'", declarou a entidade.
No México, há apreensão sobre a capacidade do aeroporto da capital, do sistema de transporte público e do Estádio Azteca, além da presença de cartéis e de uma greve nacional de professores, cujo slogan é "sem solução, a bola não rola". A presidente Claudia Sheinbaum, no entanto, se mostra confiante: "Este é o momento de presenciar o melhor futebol do mundo e mostrar a todos quem somos".
O jornalista esportivo mexicano Rafael Puente defende que os problemas não devem ser escondidos. "Espero que os torcedores mostrem paciência e bom comportamento", disse.
Analistas apontam que o sucesso do torneio pode ajudar na revisão do acordo de livre comércio USMCA, em vigor desde 1994. O México já iniciou negociações formais com os EUA, e o Canadá busca fortalecer laços com a China. "Quando você reúne os líderes, geralmente sai algo bom", comentou Dade.
Trump, que vê a Copa como oportunidade de colocar os EUA sob holofotes, pode alimentar ressentimentos, mas também tem interesse em evitar incidentes diplomáticos. "Já se sabia desde o princípio que seria muito complicado", concluiu Krasnoff.
Com informações de BBC News Brasil.