A COP31, conferência das Nações Unidas sobre mudanças climáticas, ocorrerá entre 9 e 20 de novembro de 2026 em Antália, na Turquia, em um formato inédito de co-liderança. O governo turco, do presidente Recep Tayyip Erdogan, será o anfitrião, enquanto as negociações serão comandadas pelo governo australiano, do primeiro-ministro Anthony Albanese. Os dois países, separados por milhares de quilômetros, assumem papéis distintos: a Turquia busca se posicionar como mediadora global, e a Austrália, como líder climática.
De acordo com o ministro do Meio Ambiente, Urbanização e Mudança Climática da Turquia, Murat Kurum, que também preside a COP31, o país atuará como "uma ponte entre os países em desenvolvimento e as economias avançadas". Em comunicado, Kurum defendeu "uma diplomacia mais justa e inclusiva, onde nenhum país seja deixado para trás". A estratégia turca ecoa tentativas anteriores de mediação, como no conflito entre Rússia e Ucrânia.
Ümit Sahin, chefe do Programa de Mudanças Climáticas do Centro de Políticas de Istambul, avalia que liderar a cúpula é um movimento político voltado principalmente ao público interno. Ele ressalta que o governo turco nunca foi negacionista climático e não teria interesse em bloquear um roteiro de abandono dos combustíveis fósseis, já que o país não é grande exportador de petróleo ou gás. No entanto, em entrevista recente à AFP, Kurum afirmou que exigir a eliminação dos combustíveis fósseis "não é realista".
A Turquia planeja dar destaque à redução de resíduos sólidos, bandeira da primeira-dama, e à eletrificação do sistema energético mundial, ponto de convergência com a Austrália. Sahin menciona que organizações da sociedade civil pedem uma meta de 35% da grade energética eletrificada até 2035, considerada ambiciosa.
Já a Austrália, que historicamente bloqueou medidas ousadas de corte de emissões, agora quer se projetar como líder climática. O ministro de Mudança Climática e Energia, Chris Bowen, afirmou que passará muito tempo dialogando com quem discorda, pois "não se chega a uma negociação bem-sucedida conversando o tempo todo apenas com pessoas com quem se concorda". O país promete apoiar pequenas nações-ilha do Pacífico, que há anos lutam por maiores esforços globais.
Kathryn McCallum, diretora de estratégia da Climate Action Network Austrália, alerta que, como nação rica e exportadora de combustíveis fósseis, a Austrália "não pode se safar usando o Pacífico para fazer greenwashing". Apesar de expandir a produção de combustíveis fósseis, o país investe intensamente em energias renováveis, sobretudo solar.
A pré-COP, encontro preparatório de alto nível, será realizada em Fiji e Tuvalu em outubro. Anne Rasmussen, negociadora-chefe do bloco dos pequenos Estados insulares (Aosis), vê a ocasião como oportuna para levar as demandas desses países ao centro dos debates. Ela defende ações decisivas para limitar o aquecimento global a 1,5°C e a operacionalização do financiamento para os mais vulneráveis.
Mere Lakeba, chefe interina da Conservation International no Pacífico, afirma que realizar a pré-COP na região conecta a diplomacia à realidade local, marcada por aumento do nível do mar e ciclones intensos. Ela cobra que o financiamento climático seja consistente, confiável, inclusivo e acessível, e que as prioridades do Pacífico integrem a agenda central. A COP31 pretende ser a "COP da implementação", mas, assim como edições anteriores, enfrenta o desafio de transformar retórica em prática.
Com informações de Folha — Ambiente.