Alguém disse (acho que o Millôr Fernandes) que o pessimista é mais feliz que o otimista: gosta quando acerta e gosta quando erra. Vendo a seleção brasileira, torço para errar: sou pessimista, mas se ela “desencantar” e jogar pra valer, viva! Vou gostar muito!

Andava com saudade do futebol. Tem aí na TV todos os dias jogos que dizem ser de futebol, mas quando tento assistir a algum, logo desisto. Não é futebol, é uma chatice.

Já fui torcedor, com muito gosto, mas os times foram me decepcionando, passei a torcer só pela seleção brasileira e ela vem me decepcionando mais ainda. Não dá gosto ver. É um futebol sem graça, burocrático. Imagino que brevemente colocarão um relógio na porta do vestiário para os jogadores baterem na saída para o campo e na volta.

O Brasil joga hoje o que chamo de “futebol caranguejo”, não anda pra frente, só de lado… ou pra trás.

Estimulado pela notícia do empate da seleção de Cabo Verde com a Espanha, decidi ver o jogo do pequeno país africano contra o poderoso Uruguai. E valeu. Lembrei-me de uma frase de Neném Prancha, o “filósofo do futebol”, antigo roupeiro, massagista e técnico dos times de base do Botafogo: “O jogador tem que ir na bola com a mesma disposição com quem vai num prato de comida, com fome, pra estraçalhar”.

Bom… ganhando por mês o que um trabalhador de salário mínimo não ganha na vida inteira, pra começar, os “craques” (entre aspas mesmo) de hoje em dia não correm pra um prato de comida. Aliás, por pura cafonice, vão atrás de um filé com ouro, como no Qatar. E não correm para a bola. Desfilam no campo exibindo novos cortes de cabelo e tatuagens. Uma apatia desgraçada pela bola.

Pois é, jogadores de Cabo Verde (mesmo que ganhando bem também), jogam com vontade, sem burocracia. Correm atrás da bola e a jogam pra frente, sempre tentando marcar gols. Os times brasileiros não atacam, ficam enrolando, passando a bola para o lado.

Vendo uns jogos da seleção brasileira há alguns anos, quando tinha falta na entrada da área, pensava: agora é gol. O futebol brasileiro tinha grandes batedores de falta. Falta perto da área era praticamente meio gol em jogos da seleção, pois tínhamos batedores como Didi, Nelinho, Gerson, Ronaldinho Gaúcho, Juninho, Rogério Ceni, Rivelino, Marcelinho Carioca… Didi chegou a ter um estilo tão próprio e eficiente de bater falta que esse tipo de chute chegou a ganhar o nome de folha-seca. De longe, com barreira à frente, a bola chutada por ele ia alta e de repente caía rumo ao gol surpreendendo o goleiro.

De uns anos pra cá, virou uma tristeza. Falta na entrada da área, em vez de um chute certeiro a gol, virou uma troca de passes recuando às vezes até o goleiro. É o futebol caranguejo em ação! Só vi uma exceção, um batedor com chute perigoso, o Raphinha. Só uma vez.

Historinhas de futebol

O que não falta e não vai faltar nos próximos dias são comentários sobre a seleção, então vou mudar de assunto. Quer dizer, mudar de assunto, não: vou continuar falando de futebol, mas não da Copa do Mundo.

Começo por uma historinha que publiquei no meu primeiro livro, “Santa Rita Velha safada”. A atuação de um juiz de futebol me fez lembrar da sabedoria do rei Salomão, e dei a esse causo o título “O Salomão do Futebol”. Escrevi esse livro em 1983 e publiquei, acho, em 1987. É baseado em um fato real: um jogo da Esportiva Nova Resende contra o time de Juruaia, no início dos anos 1950. O que me impressiona é quantidade de gente que se “apropriou” dele. Publicam igualzinho, mas dizendo que aconteceu na cidade do proseador. Recentemente vi até num programa de televisão, um pessoal da cidade de Lagoa da Prata contando essa história e até um idoso se apresentando como o protagonista. Vamos lá.

O Salomão do Futebol

O time de futebol de Santa Rita Velha estava jogando na vizinha cidade de Presépio, contra seu tradicional adversário, o Presépio Sport Club. A bola, velha e meio torta, meio oval, não atrapalhava nada a qualidade do jogo. Combinava bem com a forma de jogar dos dois times.

Aos quarenta minutos de jogo, a bola sobrou pingando para o centro avante Cavadeira, de Santa Rita, que encheu o pé, chutou com toda a força, mas o goleiro estava bem colocado e pulou, agarrando a “redonda” no peito.

Acontece que a bola não resistiu. Ao bater no peito do goleiro, estourou, e ele ficou segurando só o capotão, enquanto a câmara de ar saltou para dentro do gol. Aí começou a confusão.

Os jogadores de Santa Rita começaram a comemorar, gritando que o que valia era a câmara de ar, enquanto os de presépio afirmavam que o capotão era o que valia e este o goleiro pegou. Os 22 jogadores e mais os reservas falavam sem ninguém ouvir:

— O que vale é a câmara…

— Não foi gol não, o capotão não entrou…

Quando já estavam partindo pra briga foi que o juiz resolveu fazer valer sua autoridade:

— Prrrrriiiii, prrrrriiiii, prrrrriiii — apitava alucinado para chamar a atenção dos jogadores, até que resolveram ouvi-lo.

— Quem entende de regra aqui sou eu! Eu é que sei o que vale e o que não vale.

— Então como é que é? É gol ou não é?

— Tá na regra: quando a câmara de ar entra e o capotão não entra, vale meio gol!

Foi o único jogo até hoje que terminou meio a zero.

Time invencível

Outro causo de Nova Resende, “acontecido” (garantem) no bairro rural chamado Córrego Cavalo, que tinha um time considerado invencível em seu campo. E era mesmo: o juiz era o principal craque do time, não deixava o adversário jogar.

Num jogo, um time da cidade achava que ganharia fácil. Logo nos primeiros minutos, o ponta esquerda centrou uma bola, o ponta direita cabeceou na pequena área e marcou o gol… anulado: “Ocê num é ponta direita? O que é que tava fazendo no lugar do centroavante? Num pode. É falta”, disse o juiz.

Dali a pouco, uma bola pingando na entrada da área, o atacante Zé do Gato encheu o pé e o goleiro nem viu a cor da bola. Gol? Bem… O gol não tinha rede, a bola entrou forte e bateu na cara do Zé Soldado, que estava atrás e foi nocauteado. “Desacato a autoridade”, decretou o juiz, anulando o gol.

Assim foi até faltar cinco minutos para terminar, sem que o time da casa conseguisse nem mesmo entrar na área adversária. Enfim, uma bola chegou lá, um atacante tropeçou nas próprias pernas dentro da área e… pênalti, claro! Quando um jogador ia colocando a bola na marca do pênalti para bater, o juiz interrompeu: “Bati o piu foi pra eu chutar o pênalti” (bater o piu era apitar). Um jogador do seu time entregou a camisa pra ele, que entregou o apito a um torcedor, bateu o pênalti e marcou. Mais uma vitória para o time invencível…

O juiz Bola Nossa

Você já imaginou um juiz de futebol torcedor fanático por um clube? Existem uns enrustidos, que roubam para um time, mas fingindo que são honestos.

Em Belo Horizonte, existiu um árbitro que não escondia sua preferência pelo Atlético Mineiro. O nome dele era Alcebíades Magalhães Dias, e o apelido era Cidinho.

Existem muitas histórias sobre como ele apitava a favor do Atlético, mas a mais conhecida foi num jogo do seu time contra o Botafogo do Rio, em Belo Horizonte, em 1949.

Numa dividida, a bola saiu pela lateral e os jogadores Afonso, do Atlético, e Santo Cristo, do Botafogo, discutiam de quem seria a lateral.

Cidinho, o juiz, falou para o Afonso:

— Bola nossa! É nossa, Afonso. É bola nossa.

Por causa disso ficou conhecido como Juiz Bola Nossa ou Cidinho Bola Nossa.

Eu me lembrei dele na época do juiz Sergio Moro atuando na Operação Lava Jato. Combina, não? Parece que tende a se repetir no caso do Banco Master.

Todo grosso tem seu dia de Pelé

Esta acima é mais uma frase atribuída a Neném Prancha. Verdadeira. Já vi pernas de pau fazendo jogadas de gênios do futebol.

Siriaco era lateral direito do segundão da Esportiva Nova Resende (antes do jogo do time principal, havia uma preliminar, do segundo time – contra o segundo time do adversário, claro. O segundão era composto por “aspirantes” ao primeiro time). O Siriaco só sabia dar uns chutões pra frente. Um dia, o goleiro entregou a bola pra ele, na entrada da área, e ele não chutou. Saiu driblando todo mundo, de cabeça baixa, só olhando a bola, até o gol adversário. Driblou até o goleiro, mas não olhava pra frente. Prensou a bola contra a trave e ficou chutando sem nem olhar pro gol. Acabou que a bola espirrou pra fora e ele não marcou o gol. Quer dizer, poderia ter feito um gol de placa, como Pelé, mas na hora agá perdeu seu momento de glória.

Outro Pelé de um dia só

Cabeça de Vaca, outro do segundão da Esportiva Nova Resende, jogava no ataque, mas nunca marcava gol. Era muito ruim de pontaria. Numa tarde chuvosa, no campo de terra cheio de barro, pegou a bola fora da área e marcou um golaço, um chute indefensável no ângulo. Todo mundo ficou pasmo. Dali a pouco, outra bola fora da área, outro chutaço e gol belíssimo. Terminado o primeiro tempo fui falar com ele. Contou que não queria marcar os gols. O campo não tinha alambrado e muita gente assistia aos jogos perto do gol. O Elias, um desafeto dele, estava lá, de pé, de roupa branca, a uns cinco metros do gol:

— A bola estava bem suja de barro e eu queria acertar o Elias, sujar a roupa dele. Errei as duas vezes. Não conta pra ninguém, tá?

Democracia corintiana

Um dia desses, no início da Copa, o prefeito de Nova York, Zohran Mandani, fez um comentário elogioso sobre a Democracia Corintiana. Merecido.

Sócrates, Casagrande, Vladimir… Bom, quando acabou a Democracia Corintiana, deixei de torcer para o Corinthians. E lembro também que a mídia esportiva teve muita culpa pelo fim da Democracia Corintiana. Locutores esportivos, comentaristas, quase todos eram raivosos contra as democracias. No futebol, então, nem ver! Se o Sócrates errava um chute ao gol, “culpa da democracia, passa a noite na gandaia…”. As vitórias da Democracia Corintiana encantavam quem gostava de futebol e de democracia, não de muitos profissionais que até podiam gostar do futebol, mas não de democracia. Nisso, louvo alguns cronistas de futebol de hoje. São muito diferentes. Só alguns.

E tem uma coisa que gosto de contar. Fiz alguns lançamentos na Feira do Livro de Ribeirão Preto. Tinha sempre um bate-papo. O primeiro que fiz foi num sábado, às 10h da manhã, no Theatro Pedro II. O bate-papo terminou às 11h, e um amigo que é o maior agitador cultural que conheço, o Kaxassa, me avisou: “Tem uma feijoada procê lá no Templo”.

O pessoal chegado a umas e outras gastava muito em bares e resolveu alugar uma bela casa que seria o “bar” desses boêmios dos bons. Bebida e tira-gostos bem mais baratos e espaço para debates, apresentações culturais etc. etc. etc. Deram a ele o nome Templo da Cidadania. Foi bom. Quando alguém telefonava pra casa de algum deles, quem atendia informava: “Ele está no Templo”. Bom, né?

Então, “minha feijoada” foi lá. Um monte de gente participando. E quem sentou ao meu lado foi o Sócrates, grande amigo do Kaxassa. Batemos um longo papo.

Goleiro folgado

O segundo time da Esportiva Nova Resende tinha um goleiro meio ruim, mas gozador, apelidado Zé Cocão por causa da cabeça enorme. Para provocar adversários, alguém levava para ele uma cadeira, uns óculos e um jornal. Punha a cadeira no meio do gol, sentava nela, colocava os óculos e fingia estar lendo o jornal.

Já imaginaram isso hoje em dia? Seria massacrado não só por jogadores adversários, mas também pela imprensa esportiva, que não tem mais humor. Aliás, consideram dribles brincalhões como ofensas inaceitáveis, portanto Garrincha seria inaceitável atualmente.

Outros tempos

Uma frase comum para estimular algum filho a estudar e ter uma boa profissão, em vez de se dedicar muito ao esporte: “Futebol não dá a camisa a ninguém”. Deixou de valer há muitos anos. O que não dá camisa a ninguém é trabalhar pra valer.

Um emprego excelente que tive foi no Sesc de São Paulo, onde passei cinco anos e meio, dois deles pesquisando cultura popular pelo Brasil inteiro. Uma maravilha! Mas por causa da militância na imprensa alternativa, fui demitido e colocado na chamada “lista negra” dos patrões paulistanos. Não arrumava emprego aqui, era um “ficha suja” da época da ditadura. Comentei com a minha mãe: “Futebol não dá camisa a ninguém… Jornalismo tira”.

Frases e mais frases

Costumo colocar uma coletânea de frases nos meus textos de cultura inútil. Já coletei umas duzentas frases sobre futebol, mas vou colocar só algumas aqui. Começo as frases pelas do já citado Neném Prancha, apelido de Antônio Franco de Oliveira:

Se concentração ganhasse jogo, o time do presídio não perdia uma partida”

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“O futebol é muito simples: quem tem a bola ataca; quem não tem, defende”.

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“Bola tem que ser rasteira, porque o couro vem da vaca e a vaca gosta de grama”.

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“Se macumba resolvesse, o campeonato baiano terminava sempre empatado”.

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“Jogador bom é que nem sorveteria: tem várias qualidades”.

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“Pênalti é tão importante que quem devia bater é o presidente do clube”.

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Agora vamos às de outros…

Baiaco (craque do Bahia, que não participou de um jogo contra o Vitória por estar machucado): “Comigo ou sem migo o Bahia ganha”.

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João Pinto (português, ex-jogador do Porto que não sabia usar o pé esquerdo, mas marcou um golaço com um chute de canhota): “Chutei com o pé que estava mais à mão”.

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João Pinto, de novo: “O meu clube estava à beira do precipício, mas tomou a decisão correta: deu um passo à frente”.

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Garrincha (falando do gol contra o Chile, na Copa de 1962): “A bola veio para a esquerda e eu não chuto bem de esquerda, mas não dava pra trocar de pé. Então chutei de esquerda fazendo de conta que era de direita”

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Garrincha, de novo (depois do final da Copa de 1958, na Suécia): “Mas por que todo mundo está chorando? Não ganhamos o jogo?”.

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Vicente Matheus: “Jogador atual tem que ser igual pato, que é ao mesmo tempo aquático e gramático”.

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Vicente Matheus, de novo: “O Sócrates é invendável e imprestável”.

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Valdomiro (ponta do Internacional de Porto Alegre, depois de ganhar uma caixa de cerveja que a Antarctica dava ao melhor jogador em campo): “Quero agradecer à Antarctica pela caixa de Brahma que ela me deu”.

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Dario Peito de Aço: “Não me venha com problemática que eu tenho a solucionática”.

Sócrates: “Segundo Maquiavel, é melhor ser temido do que ser amado. Mas é uma escolha que a seleção não precisa fazer. Ela é temida e amada. Temida pelos adversários e amada por quem ama futebol”.

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Eduardo Galeano, nos bons tempos do futebol brasileiro: “Existem algumas cidades e vilarejos no Brasil que não têm igreja, mas não há nenhuma sem campo de futebol”.

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Di Stefano (argentino que foi um dos maiores craques do futebol espanhol): “Jogamos como nunca e perdemos como sempre”.

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Winston Churchill: “Os italianos perdem jogos de futebol como se fossem guerras, e perdem guerras como se fossem jogos de futebol”.

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Nelson Rodrigues: “Muitas vezes é a falta de caráter que decide uma partida. Não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos”.

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Carlos Drummond de Andrade: “Futebol se joga no estádio? Futebol se joga na praia, futebol se joga na rua, futebol se joga na alma”.

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Achava que terminaria com esta do Drummond, que gosto muito. Mas me lembrei do grande ladrão Gino Meneghetti, que só roubava ricos, e há décadas, quando os gênios do futebol ganhavam uma merreca comparando com o que ganham pernas de pau de hoje. Ele já achava demais naquela época: “Vem um sujeito de calcinha, dá um pontapé numa pelota e fica milionário. Isto é absurdo. O outro fica rico dando um murro na cara do outro. São espetáculos que para mim (…) o governo apoia, uma nova política para distrair o povo, como em Roma”.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum.