O conflito entre Estados Unidos e Israel contra o Irã tem gerado consequências profundas para os países do Golfo Pérsico, indo além da ameaça militar imediata. A guerra acirrou divergências entre os seis integrantes do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) — Bahrein, Kuwait, Omã, Catar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos —, afetando setores como turismo, energia e crescimento econômico.
Apesar de um cessar-fogo formal, mas continuamente descumprido por ambos os lados, infraestruturas-chave na região têm sido alvo de milhares de mísseis balísticos e drones. O bloqueio do Estreito de Ormuz, imposto tanto pelo Irã quanto pelos EUA, agravou o impacto no comércio e na estabilidade econômica. Governos do Golfo tentam evitar um envolvimento mais profundo no conflito.
Turismo e aviação em crise
O turismo, um dos pilares das estratégias de diversificação econômica, foi duramente atingido. Em março, o aeroporto internacional de Dubai foi atingido por drones iranianos, e mais de 30 mil voos pelo Oriente Médio foram cancelados. Companhias aéreas operam com cronogramas reduzidos desde o início da guerra. O bloqueio de Ormuz fez o preço do combustível de aviação quase dobrar em relação ao ano anterior.
“A imagem do Golfo como um porto seguro foi claramente abalada no curto e médio prazo”, afirmou Pauline Raabe, analista do think tank Middle East Minds, com sede em Berlim. “Os potenciais turistas foram lembrados de onde o país está localizado, ou seja, no meio de uma região geopoliticamente tensa.”
A ocupação hoteleira em Dubai deve cair de 80% para 10% no segundo trimestre de 2026, segundo a agência de análise financeira Moody’s. Em abril, o Banco Mundial reduziu sua previsão de crescimento econômico para o CCG de 4,4% para 1,3%.
Infraestrutura energética danificada
O Irã atacou hotéis, bases militares dos EUA e infraestruturas energéticas locais. A QatarEnergy, estatal de energia do Catar, afirmou que serão necessários até cinco anos para reparar o polo industrial de Ras Laffan, atingido por um míssil balístico iraniano em março. O diretor-executivo Saad Al Kaabi disse à BBC que a magnitude dos danos “fez a região recuar de 10 a 20 anos”.
Irã e Estados Unidos continuam usando as proibições ao tráfego em Ormuz como ferramenta de pressão nas negociações de paz. Cerca de um quinto do petróleo mundial passa pelo gargalo marítimo. As exportações de petróleo e gás de Bahrein, Kuwait e Catar seguem prejudicadas. A Moody’s rebaixou a perspectiva de crédito do Bahrein de “estável” para “negativa”.
Por outro lado, Omã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos conseguiram aumentar seus lucros com petróleo por contarem com infraestruturas alternativas. A Arábia Saudita desviou parte de sua produção para um oleoduto que liga o leste ao Mar Vermelho, e os Emirados usam um oleoduto terrestre entre Habshan e Fujairah. Segundo a Saudi Aramco, o primeiro trimestre de 2026 registrou um salto de 26% nos lucros. Os Emirados deixaram a Opep e a Opep+ em 1º de maio de 2026, após seis décadas no grupo.
Reações e acordos de defesa
Analistas preveem que, mesmo após o fim da guerra, prêmios de risco elevados continuarão pressionando os preços. Raabe acredita que o setor financeiro estará entre os primeiros a se recuperar, mas os países do Golfo perceberam que precisarão assumir maior responsabilidade por sua própria segurança.
“Vários pressupostos foram questionados, como a ideia de que se pode oferecer incentivos econômicos ao regime iraniano para garantir segurança”, afirmou Cinzia Bianco, analista do Conselho Europeu de Relações Exteriores. Novos acordos de defesa estão sendo firmados: o Catar firmou um memorando de entendimento com o Canadá; os Emirados assinaram um acordo com a França. Israel teria enviado seu sistema de defesa aérea Domo de Ferro aos Emirados, segundo o embaixador americano em Israel, mas sem confirmação oficial.
Até o momento, os Emirados evitaram romper relações diplomáticas com o Irã, adotando uma retórica de desescalada. Para Mona Yacoubian e Will Todman, do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), esses desdobramentos fazem parte de um “novo normal” em que o Golfo terá de administrar sua relação com o Irã. “O Irã veio para ficar”, escreveram.
Repressão e direitos humanos
Cinzia Bianco prevê uma abordagem mais autoritária. A Anistia Internacional alertou para uma escalada de repressão na região, com mais de mil pessoas presas, algumas por compartilhar mensagens sobre o conflito na internet. Heba Morayef, diretora regional da organização, afirmou que “qualquer limitação à liberdade de expressão precisa seguir rigorosos padrões internacionais de direitos humanos” e que a atual repressão “vai muito além do permitido pelo direito internacional”.
Para os especialistas Frederic Wehrey e Charles H. Johnson, da Fundação Carnegie para a Paz Internacional, essas medidas “devem ser vistas mais como um sinal de fraqueza do que como demonstração de força”, com o risco de persistirem mesmo após o fim do conflito.
Com informações de CartaCapital.