Um projeto-piloto na Reserva Extrativista (Resex) Tapajós-Arapiuns, no sudoeste do Pará, está fornecendo eletricidade 24 horas por dia a comunidades ribeirinhas por meio de um sistema integrado de painéis solares e turbinas hidrocinéticas fluviais. A iniciativa surge em meio ao descumprimento das promessas de desenvolvimento energético feitas durante a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Rio Xingu, que começou a operar em 2016 como a quarta maior do mundo.
Promessas não cumpridas de Belo Monte
Quando o governo brasileiro aprovou a construção de Belo Monte, a expectativa era de que o megaprojeto transformaria o panorama energético nacional e local, gerando energia limpa para indústrias e residências, além de levar desenvolvimento a comunidades isoladas. Quase uma década após o início das operações, a realidade é diferente: comunidades vulneráveis que dependiam da pesca foram severamente afetadas economicamente, e muitas famílias ribeirinhas continuam sem conexão à rede elétrica ou pagam algumas das contas de luz mais altas do país.

Atualmente, Belo Monte opera com apenas 23% de sua capacidade instalada em 2024, segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). Dados do Instituto de Energia e Meio Ambiente (Iema) indicam que cerca de 990 mil pessoas na Amazônia brasileira (3,5% da população local) ainda não têm acesso à eletricidade. Dessas, 19% vivem em terras indígenas. Muitas comunidades próximas à barragem dependem de pequenas redes movidas a diesel, gerando custos de subsídios governamentais de até US$ 2,5 bilhões por ano e emissões de 1,6 milhão de toneladas de CO₂.
Pesquisa aponta aumento de tarifas
Um estudo publicado em 2024 por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Universidade Estadual de Michigan, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), realizou uma pesquisa domiciliar com 500 famílias em Altamira, no Pará. O levantamento mostrou que 86,8% das famílias sofreram impacto negativo nos preços da energia elétrica após a construção de Belo Monte. As tarifas dispararam, enquanto as comunidades enfrentam apagões e custos proibitivos.

“As pessoas estão bem debaixo da linha de transmissão, mas a energia [para a localidade delas] não vem daquela hidrelétrica. Essa energia vai para São Paulo e Rio, vai direto para lá, nunca passa pelas comunidades amazônicas”, afirmou Emilio Moran, antropólogo social da Universidade de Michigan e líder da pesquisa. Segundo ele, a energia mais barata e sustentável era “uma das grandes promessas [do projeto de Belo Monte], e foi por isso que as pessoas disseram ‘sim, nós queremos’”, mas que, após quase 10 anos, essa promessa ainda não foi cumprida.
Em 2019, os pesquisadores já haviam revelado que, apesar do investimento maciço, Altamira e cidades vizinhas enfrentavam infraestrutura frágil, aumento do custo de vida e tarifas de eletricidade mais altas do que antes da barragem. “Como é possível que alguém em São Paulo pague R$ 300 por mês de energia e, em Altamira, ao lado de Belo Monte, [as pessoas] paguem R$ 1.500?”, questionou Moran, atribuindo a disparidade à falta de políticas para geração distribuída e autonomia comunitária.

Projeto-piloto na Resex Tapajós-Arapiuns
No coração da Resex Tapajós-Arapiuns, uma iniciativa energética comunitária liderada por Moran com apoio da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) pode abrir caminho para a autonomia sustentável. Lançado em 2023 como projeto-piloto em três comunidades ribeirinhas próximas a Santarém, o sistema fornece energia fora da rede, alimentada por painéis solares e turbinas hidrocinéticas fluviais.
“A ideia é exatamente essa: levar energia para contribuir com a melhoria da qualidade de vida dessas comunidades”, disse Lázaro Santos, coordenador do projeto e professor do Laboratório de Energias Renováveis (LER) da Ufopa. O sistema integra energia fotovoltaica com turbinas, financiadas pela Universidade de Michigan e projetadas por alunos de engenharia mecânica da Ufopa em parceria com uma empresa local de manufatura.
Tecnologia e funcionamento
“Um sistema de painéis solares off-grid funciona de forma intermitente. Ele não opera 24 horas; funciona enquanto o sol está passando. Quanto à turbina, podemos aproveitá-la 24 horas. Ela fica girando 24 horas por dia, o ano inteiro”, explicou Santos. As turbinas utilizam a energia do rio: “Vamos aproveitar a energia contida nessa massa de água se movendo no rio, colocando a turbina nesse fluxo, e ela vai usar essa energia e transformá-la em energia elétrica.” Equipadas com sistema de filtragem de rotação lenta e uma grade, as turbinas são projetadas para não prejudicar a fauna local, embora não funcionem em rios rasos.
Impactos na comunidade
Oséas dos Santos, morador da comunidade de Porto Rico, na Resex, relatou os benefícios. Antes, a comunidade dependia de gerador a diesel, consumindo 60 litros por mês a R$ 12 o litro, com dificuldade de compra e transporte. A eletricidade só estava disponível das 19h às 22h. “A gente tinha televisão, mas não tinha um freezer, porque não dava tempo de congelar nada nesse período.” Agora, três anos após o início, “a gente tem um freezer comunitário que é para toda a comunidade. Tem um sistema que funciona 24 horas, para internet e para o freezer comunitário. Melhorou 100%.”
Evanilson Silva de Souza, outro morador, contou que antes não havia acesso a energia elétrica. Tentaram internet com bateria de outra comunidade, mas não durou. Com o projeto, “a comunicação também melhorou. Se alguém ficava doente, a gente tinha que viajar para outra comunidade para chamar [agentes de saúde em] Santarém e pedir ajuda. Agora a gente consegue chamar uma ambulância daqui. Isso fez uma diferença enorme.” O projeto também criou um programa educacional para que as comunidades administrem o sistema; em Porto Rico, três pessoas estão preparadas para manutenção.
Planos de expansão e posicionamento da Norte Energia
Segundo Moran, a iniciativa atende atualmente quase 200 pessoas, com planos de expansão para os próximos dois anos. Em nota após a publicação da reportagem, a Norte Energia, operadora de Belo Monte, afirmou que monitora a pesca na região há 14 anos e que “os resultados acumulados demonstram a sustentabilidade do ecossistema”. A empresa disse também que pratica uma das tarifas mais baixas do mercado.