Um projeto-piloto na Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns, no sudoeste do Pará, está fornecendo eletricidade ininterrupta por meio de um sistema que integra painéis solares e turbinas hidrocinéticas fluviais. As turbinas utilizam grades de rotação lenta e sistemas de filtragem especializados, projetados para gerar energia sem prejudicar a fauna local.
A iniciativa surge em um contexto de frustração com os resultados da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Rio Xingu. Aprovada com a promessa de transformar o acesso à energia na região, a quarta maior hidrelétrica do mundo, em operação desde 2016, não cumpriu essa expectativa para muitas comunidades. De acordo com um estudo de 2024 das universidades Estadual de Campinas (Unicamp) e Estadual de Michigan, financiado pela Fapesp, 86,8% das 500 famílias entrevistadas em Altamira (PA) relataram impacto negativo nos preços da energia após a construção da barragem.

O antropólogo social Emilio Moran, da Universidade Estadual de Michigan e líder da pesquisa, afirmou que a energia de Belo Monte "vai para São Paulo e Rio, vai direto para lá, nunca passa pelas comunidades amazônicas". Ele destacou que, enquanto consumidores em São Paulo pagam cerca de R$ 300 por mês, em Altamira, ao lado da usina, as contas podem chegar a R$ 1.500. A pesquisa também apontou que famílias de baixa renda dependem de geradores a diesel para suprir falhas, elevando ainda mais o custo de vida.
Segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Belo Monte operou em 2024 com apenas 23% de sua capacidade instalada. Dados do Instituto de Energia e Meio Ambiente (Iema) indicam que cerca de 990 mil pessoas na Amazônia brasileira ainda não têm acesso à eletricidade, sendo 19% delas em terras indígenas. Os subsídios governamentais para redes a diesel na região podem alcançar US$ 2,5 bilhões anuais, com emissão de 1,6 milhão de toneladas de CO₂.

A Norte Energia, operadora de Belo Monte, declarou em nota que monitora a pesca há 14 anos e que "os resultados acumulados demonstram a sustentabilidade do ecossistema". A empresa também afirmou praticar uma das tarifas mais baixas do mercado.
Projeto-piloto na Resex Tapajós-Arapiuns
Coordenado por Emilio Moran com apoio da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), o projeto foi lançado em 2023 em três comunidades ribeirinhas próximas a Santarém. O sistema combina energia fotovoltaica e turbinas hidrocinéticas projetadas por alunos de engenharia mecânica da Ufopa, em parceria com uma empresa local, e financiadas pela Universidade de Michigan.

O professor Lázaro Santos, do Laboratório de Energias Renováveis da Ufopa, explicou que os painéis solares operam de forma intermitente, enquanto as turbinas funcionam 24 horas por dia, aproveitando a energia do fluxo do rio. As turbinas são equipadas com filtros e grades para proteger a fauna e têm melhor desempenho em águas profundas.
Na comunidade de Porto Rico, o morador Oséas dos Santos relatou que antes dependiam de um gerador a diesel que consumia 60 litros por mês, com o combustível custando R$ 12 o litro e de difícil acesso. "A gente tinha televisão, mas não tinha um freezer, porque não dava tempo de congelar nada", disse. Agora, a comunidade conta com um freezer comunitário e internet 24 horas, além de três pessoas treinadas para manutenção dos equipamentos.
Evanilson Silva de Souza, outro morador, contou que antes do projeto não havia acesso à energia elétrica. Tentativas com pequenos sistemas solares duravam apenas uma hora. "Se alguém ficava doente, a gente tinha que viajar para outra comunidade para chamar ajuda. Agora a gente consegue chamar uma ambulância daqui", afirmou.
O projeto atende atualmente quase 200 pessoas e há planos de expansão para os próximos dois anos, segundo Moran. A iniciativa também inclui um programa educacional para que as comunidades administrem o sistema de forma autônoma.
Com informações de Mongabay Brasil.