A Oxford Quantum Circuits (OQC), empresa britânica, instalou um computador quântico em um data center em Manhattan, disponibilizando-o para uso corporativo via nuvem ou fibra óptica. Equipado com hardware de inteligência artificial da Nvidia, o sistema realiza cálculos complexos em áreas como finanças e química. Grandes empresas de tecnologia, incluindo Google e IBM, projetam que máquinas quânticas superarão os computadores convencionais até 2030, com impacto potencial em criptomoedas e descoberta de medicamentos.

O diretor-executivo da OQC, Gerald Mullally, afirmou que a base de clientes da empresa representa uma aposta na tecnologia. "Essencialmente, é uma aposta que essas empresas estão fazendo de que 'isso vai acontecer, vai ser importante e, portanto, quanto antes nos envolvermos, mais prática teremos'", disse. No entanto, especialistas alertam para riscos à privacidade e segurança nacional, enquanto outros questionam a viabilidade de máquinas úteis.

Computadores quânticos não se limitam mais a laboratórios. Estima-se que dezenas de sistemas já estão em operação, e a consultoria McKinsey projeta cerca de 5 mil unidades até 2030.

Investimentos e previsões

O setor atrai investimentos crescentes. A Quantinuum, apoiada pela Honeywell, foi avaliada em mais de US$ 15 bilhões em sua recente abertura de capital. As ações da IonQ subiram mais de 700% desde setembro de 2024. Gigantes como Google e IBM estabeleceram a meta de máquinas úteis até 2030. O CEO do Google, Sundar Pichai, comparou o estágio atual da tecnologia quântica ao da inteligência artificial cinco anos atrás. O governo dos Estados Unidos anunciou planos de adquirir participações acionárias de US$ 2 bilhões em nove empresas de computação quântica.

Como a computação quântica funciona

Diferente dos computadores convencionais, que operam com bits binários (0 ou 1), os computadores quânticos utilizam qubits, que podem existir em superposição – ou seja, representar 0 e 1 simultaneamente. Isso permite avaliar múltiplas soluções ao mesmo tempo. Uma analogia: enquanto um computador tradicional percorre um labirinto caminho a caminho, uma máquina quântica examina todo o mapa de uma só vez.

Apesar do potencial, barreiras técnicas persistem. Pesquisadores do Instituto de Tecnologia da Califórnia estimam que um computador quântico funcional exigiria pelo menos 1.000 qubits lógicos. O modelo atual da OQC, o Genesis, possui apenas 16 qubits.

Aplicações iniciais

As primeiras aplicações práticas são esperadas em química e ciência dos materiais, áreas em que a natureza quântica das máquinas oferece vantagem na simulação de interações atômicas. Máquinas quânticas poderiam prever interações entre medicamentos e células vivas, acelerando a descoberta de fármacos.

O Google colaborou com a farmacêutica Boehringer Ingelheim, com a Bosch em ciência dos materiais e com a Mercedes-Benz em tecnologia de baterias. A Chevron investiu 260 milhões de libras na OQC, sinalizando interesse em cibersegurança e otimização de sistemas.

No setor financeiro, o J.P. Morgan Chase identifica "benefícios iniciais" no processamento de grandes volumes de dados em tempo real, incluindo gestão de riscos, precificação de investimentos e detecção de fraudes.

Testes conduzidos pela Unisys, em parceria com a Paysafe e o Centro Nacional de Computação Quântica do Reino Unido, registraram zero falsos negativos na detecção de fraudes. A Mastercard e a OQC também desenvolveram um sistema experimental que reduziu falsos positivos em relação às técnicas atuais.

Riscos de segurança: o Q-Day

Um dos riscos mais sérios é o chamado Q-Day, momento em que máquinas quânticas conseguirão quebrar os métodos criptográficos atuais. A criptografia convencional se baseia na dificuldade de fatorar números primos muito grandes, tarefa que um computador quântico poderia realizar com facilidade.

A ameaça é amplificada pela estratégia "colha agora, decifre depois", em que hackers roubam dados hoje para decifrá-los no futuro. O setor de criptomoedas é particularmente vulnerável. Para se preparar, governos e empresas estão adotando algoritmos de "criptografia pós-quântica", incluindo três desenvolvidos em 2024 sob supervisão do Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia dos EUA.

Desafios técnicos e ceticismo

Quase ninguém no setor vê os computadores quânticos como substitutos dos convencionais; eles são vistos como complementares para tarefas altamente complexas. Timothy Costa, vice-presidente de computação quântica da Nvidia, afirmou: "O que a computação faz é aumentar o bolo. A quântica fará isso também".

O principal obstáculo técnico é o "ruído" – variações aleatórias que causam erros nos qubits. Fenômenos quânticos são frágeis e sensíveis a perturbações ambientais, como calor e campos magnéticos. O matemático Gil Kalai, da Universidade Hebraica de Jerusalém, questiona se as técnicas de correção de erros serão suficientemente robustas.

Apesar do ceticismo, os defensores apontam progressos. A OQC prevê que, em meados da próxima década, o Genesis será superado por gerações mais potentes. Para Mullally, a linguagem mítica do setor não deve obscurecer os avanços: "O setor realmente se inclina para esse tipo de mundo onírico de ficção científica no geral. Mas agora é muito mais real".