Uma investigação conjunta do Drop Site News e do Intercept Brasil revela como uma operação secreta do Departamento Antidrogas dos EUA (DEA) deu origem à Segunda Marquetália, um grupo insurgente colombiano que posteriormente foi usado para justificar a invasão da Força Delta a Caracas em janeiro, que resultou na prisão do ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro.
O grupo foi fundado em 2019 por ex-líderes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) após a operação do DEA ter como alvo Jesús Santrich, um dos principais negociadores do acordo de paz colombiano. Santrich, que havia concordado em depor as armas e se tornar deputado, abandonou a vida civil quando os EUA buscaram sua extradição, desrespeitando o frágil acordo de paz.
Segundo Elizabeth Dickinson, vice-diretora de programa para a América Latina e o Caribe na ONG International Crisis Group, “este caso criou a Segunda Marquetália”.
O caso Santrich
As negociações de cocaína que levaram à prisão de Santrich foram iniciadas por um informante de longa data do DEA, que estava na folha de pagamento do governo dos EUA e cujas ações foram coordenadas por agentes especiais em Miami e Bogotá. Todo o dinheiro envolvido na suposta negociação, incluindo milhões de dólares em notas falsas, foi fornecido pelo governo dos EUA. Os cinco quilos de cocaína entregues durante a operação foram fornecidos por um traficante com vínculos limitados com as Farc, que se tornou testemunha protegida pelo Departamento de Justiça dos EUA.
Santrich só se envolveu superficialmente na negociação depois que os informantes do DEA o pressionaram para uma reunião. Ele foi perseguido embora só estivesse presente em duas reuniões ao longo dos nove meses da operação, que aconteceram depois que a cocaína já havia sido entregue.
Durante o primeiro governo Trump, o Departamento de Estado se recusou reiteradamente a colaborar com a justiça colombiana. Os EUA recusaram pedidos da Colômbia para apresentar provas contra Santrich, que permitissem à justiça determinar se ele poderia ser legalmente extraditado para os EUA.
Consequências
As consequências da operação levaram ao enfraquecimento do acordo de paz, à criação da Segunda Marquetália e a uma investigação da ONU sobre o problema. A investigação da ONU revelou que a operação pode ter sido comandada por um “agente provocador”, mas não chegou a identificá-lo como o informante do DEA.
O governo Trump intensificou a guerra às drogas com o envolvimento dos militares, classificando grupos criminosos como organizações “terroristas” para justificar ataques militares. Pelo menos 190 pessoas já foram mortas nos ataques, incluindo pescadores sem envolvimento com o tráfico.
O governo também usou acusações de tráfico de drogas para atacar adversários políticos, como Maduro e o presidente colombiano Gustavo Petro. Em outubro, os EUA impuseram sanções contra Petro, sua esposa, seu filho e o ministro do Interior por supostamente permitirem que cartéis de drogas prosperassem.
Histórico do conflito
As Farc foram criadas em 1964 a partir de conflitos agrários. Durante cinco décadas, com apoio dos EUA, militares colombianos e grupos paramilitares combateram as guerrilhas de esquerda, resultando em mais de 200 mil mortos e 10 milhões de desalojados. O Plano Colômbia, lançado em 1999, pretendia erradicar o tráfico de drogas, mas acabou alimentando o conflito.
Em 2012, o presidente Juan Manuel Santos iniciou negociações de paz com as Farc. Santrich e Iván Márquez adotaram uma abordagem linha-dura, pressionando por um desarmamento gradual. A operação do DEA contra Santrich, no entanto, minou o processo de paz e levou ao rearmamento de ex-guerrilheiros.
Com informações de Intercept Brasil.