Nesta terça-feira (23), o chanceler Wang Yi, membro do Birô Político do Partido Comunista da China e diretor do Escritório da Comissão Central de Relações Exteriores, reuniu-se com o primeiro-ministro indiano Narendra Modi em Nova Délhi.
O encontro ocorreu durante a 16ª Reunião de Conselheiros de Segurança Nacional e Representantes de Segurança Nacional do BRICS, que Wang Yi integra na delegação chinesa.
Durante os diálogos, Modi enfatizou o histórico compartilhado entre os dois países. Afirmou que “Índia e China são civilizações antigas com uma história de intercâmbios amistosos que abrange milhares de anos, e os dois países ocuparam posições de liderança e dominância no mundo durante um longo período”.
O primeiro-ministro indiano sinalizou apoio à próxima presidência rotativa do BRICS que caberá à China. Modi reafirmou a disposição da Índia em colaborar com o país asiático para impulsionar o desenvolvimento institucional do bloco. Segundo Modi, as duas nações devem “sustentar intercâmbios de alto nível, avançar cooperação prática e salvaguardar os interesses comuns dos países do Sul Global”.
Wang Yi respondeu destacando o papel estratégico que ambas as nações devem desempenhar. Sublinhou que “China e Índia, como os dois maiores países em desenvolvimento e membros importantes do Sul Global, devem desempenhar um papel exemplar na promoção da solidariedade e autossuficiência entre os países do Sul Global”.
O representante chinês confirmou o compromisso de Beijing com o andamento das atividades do BRICS durante a presidência indiana em curso e reafirmou a intenção de trabalhar conjuntamente para garantir avanços sólidos na cooperação do bloco.
Wang Yi mencionou ainda questões bilaterais específicas. Declarou que a China está “pronta para trabalhar com a Índia na implementação do importante consenso alcançado entre os líderes dos dois países, continuamente reforçar a confiança e dissipar dúvidas, lidar adequadamente com questões sensíveis, aprofundar cooperação mutuamente benéfica, manter o impulso positivo das relações China-Índia”.
O diretor chinês argumentou que tal abordagem “serve plenamente os interesses fundamentais dos dois povos e está em conformidade com as expectativas comuns da comunidade internacional”.
A reconstrução de relações
O encontro ocorre em meio a um processo gradual de reconstrução das relações entre China e Índia, abaladas nos últimos anos por disputas fronteiriças, tensões diplomáticas e desconfianças estratégicas. Embora os dois países sigam com divergências importantes, sobretudo em relação à fronteira no Himalaia e ao equilíbrio de poder na Ásia, Beijing e Nova Délhi fortaleceram o diálogo nos últimos meses.
Um dos marcos desse movimento foi o entendimento alcançado em outubro de 2024 para reduzir tensões em áreas disputadas da fronteira, especialmente em regiões do Ladakh, após anos de impasse militar.
A partir desse gesto, os dois governos passaram a reconstruir canais de diálogo político, diplomático e econômico.
Em janeiro de 2025, China e Índia avançaram na retomada dos voos diretos entre os dois países, suspensos havia quase cinco anos, além de discutirem formas de reduzir divergências comerciais e ampliar os intercâmbios entre suas populações. Nos meses seguintes, também houve gestos de distensão, como a retomada de peregrinações indianas ao Tibete e novas conversas sobre comércio fronteiriço, facilitação de vistos e investimentos.
A aproximação ganhou força em meio à escalada tarifária promovida pelos Estados Unidos sob Donald Trump no ano passado. Como mostrou a Revista Fórum, as tarifas impostas por Washington acabaram impulsionando um novo momento nas relações entre China e Índia e fortalecendo o papel do BRICS como plataforma de articulação entre grandes economias do Sul Global.
Esse movimento ficou ainda mais evidente na cúpula da Organização para Cooperação de Xangai, realizada em Tianjin, na China, em 2025, quando Índia, Rússia e China fortaleceram laços em resposta às pressões dos Estados Unidos. Na ocasião, o primeiro-ministro Narendra Modi e o presidente chinês Xi Jinping defenderam que os dois países devem ser vistos como parceiros, não rivais, e que suas relações não devem ser conduzidas pela ótica de terceiros.
A reaproximação, no entanto, não significa ausência de disputas. Índia e China continuam competindo por influência regional, tecnologia, comércio, infraestrutura e segurança. Nova Délhi também busca reduzir seu déficit comercial com Beijing e preservar margem de manobra em sua relação com os Estados Unidos e outros parceiros do Indo-Pacífico.
Ainda assim, o encontro entre Wang Yi e Narendra Modi confirma que os dois países tentam administrar divergências sem interromper a cooperação. Para China e Índia, as duas maiores populações do planeta e atores centrais do BRICS, a recomposição do diálogo atende a interesses nacionais próprios e reforça a construção de uma agenda mais autônoma do Sul Global.