A Rússia mantém suas exportações de petróleo por via marítima apesar das sanções ocidentais graças a uma 'frota fantasma' de petroleiros envelhecidos, que operam sem seguro reconhecido e sob bandeiras de conveniência. Segundo analistas da S&P Global, esses navios transportam atualmente 80% do petróleo russo embarcado, desafiando as restrições impostas pelos Estados Unidos e aliados.
A frota fantasma não apenas contrabandeia o principal produto de exportação da Rússia, gerando receita para financiar a guerra na Ucrânia, mas também é empregada em operações 'híbridas' de espionagem e sabotagem contra países da Otan, incluindo ameaças a oleodutos e cabos submarinos. O economista sênior do Instituto Kiev School of Economics, Benjamin Hilgenstock, afirmou que 'a Rússia formou uma frota fantasma de petroleiros, que permite ao país se esquivar das sanções'.

A dimensão da frota fantasma
Antes da invasão da Ucrânia em 2022, a maior parte do petróleo russo era transportada por petroleiros ocidentais, principalmente gregos, com operações na Suíça e seguros em Londres. Atualmente, até quatro em cada cinco petroleiros que carregam petróleo russo não possuem seguro de clubes de proteção e indenização reconhecidos internacionalmente. A S&P Global estima que a frota fantasma compreenda cerca de 1,3 mil navios, dos quais 50% transportam apenas petróleo russo, 20% apenas iraniano, 10% apenas venezuelano e os 20% restantes carregam petróleo de múltiplos países sancionados.
O principal destino dessas cargas é a Índia e a China, os maiores importadores mundiais de petróleo por via marítima. Compradores menores incluem Turquia, Singapura e Emirados Árabes Unidos. Cerca de 75% das exportações russas por mar saem dos portos do Báltico e do Mar Negro, atravessando águas europeias diariamente, segundo Hilgenstock.

Artifícios para encobrir rastros
Para evitar a detecção, os navios da frota fantasma utilizam várias táticas: mudanças frequentes de nome e bandeira, propriedade por empresas de fachada em jurisdições como Dubai e desligamento de transponders. O número de navios com bandeiras falsas cresceu pelo menos 65% entre janeiro e agosto de 2025, de acordo com a empresa de análises marítimas Windward. Muitos registros de bandeira são fraudulentos ou emitidos por países que não monitoram o uso de suas bandeiras.
Em outubro de 2025, o petroleiro Boracay, que já havia mudado de nome e bandeira várias vezes, foi detido pela França próximo ao litoral. O navio transportava 750 mil barris de petróleo russo do terminal de Primorsk para a Índia. A promotoria de Brest citou 'recusa da tripulação a cooperar' e 'falta de justificativa para a nacionalidade do navio'.

Incidentes e resposta da Otan
Drones suspeitos de origem russa forçaram o fechamento temporário de aeroportos na Dinamarca, Suécia, Noruega e Alemanha, além de Bruxelas, em novembro de 2025. A Rússia nega envolvimento em uma 'guerra híbrida' contra aliados da Ucrânia. Como reação, a Otan lançou a missão Sentinela do Báltico. O secretário-geral da aliança, Mark Rutte, declarou: 'Os capitães dos navios precisam entender que potenciais ameaças à nossa infraestrutura terão consequências, incluindo possíveis abordagens, apreensões e prisões'.
Países como Reino Unido, Dinamarca, Suécia e Polônia passaram a inspecionar documentos de seguro em pontos estratégicos como o Canal da Mancha e os estreitos dinamarqueses. Estônia, Finlândia, Alemanha, Islândia, Letônia, Lituânia, Holanda e Noruega concordaram em 'interceptar e deter' navios fantasmas. No entanto, a interceptação só é permitida em águas territoriais (até 22 km da costa). Em águas internacionais, o princípio de 'passagem inocente' limita a ação. Quando a Estônia tentou deter um petroleiro sem bandeira em maio de 2025, a Rússia enviou um caça para sobrevoar a área.
Riscos ambientais e econômicos
Os petroleiros da frota fantasma são geralmente velhos, com manutenção precária. Em dezembro de 2024, dois navios de 50 anos vazaram até 5 mil toneladas de petróleo no estreito de Kerch, após uma tempestade. O chefe da Academia Russa de Ciências, Viktor Danilov-Danilyan, classificou o incidente como a pior 'catástrofe ambiental' do país no século 21. A falta de seguro adequado significa que, em caso de acidente, os custos de limpeza e danos recaem sobre governos e comunidades.
Apesar dos riscos, o negócio é altamente lucrativo. Um petroleiro de 15 anos custa cerca de US$ 40 milhões, mas uma única viagem do Mar Negro à Índia pode render mais de US$ 5 milhões para o proprietário, segundo a S&P Global. Empresas de fachada compram navios no fim da vida útil, desestabilizando o mercado de transporte marítimo.
Frota Fantasma 2.0
Mesmo que as sanções sejam suspensas, a frota fantasma deve persistir e se expandir para outros setores. A publicação especializada Lloyd's List aponta o surgimento de uma 'Frota Fantasma 2.0', citando o navio porta-contêineres chinês Heng Yang 9, repetidamente identificado em rotas entre a Ucrânia ocupada e Istambul.