Uma colisão entre dois helicópteros no espaço aéreo do Rio de Janeiro, ocorrida no domingo (14), resultou na morte de seis pessoas, entre elas o cantor americano Oliver Tree. O acidente, considerado raro na aviação, gerou comoção internacional e levantou questionamentos sobre o controle de tráfego aéreo na região. As investigações estão a cargo do Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos).

Vítimas e circunstâncias

Não houve sobreviventes. Em uma das aeronaves estavam cinco pessoas: Oliver Tree, o youtuber argentino Gaspar Prim, o produtor musical Lucas Frota, o diretor argentino Lucas Vignale e o piloto Alexandre Souza. No outro helicóptero, pilotado por Charles Marsillac, apenas ele estava a bordo. Testemunhas registraram o momento da colisão.

Como funciona o voo de helicópteros

A maioria dos helicópteros opera em regime de voo visual (VFR), no qual o piloto navega com base na observação direta do ambiente externo, sem depender de instrumentos ou controle de tráfego aéreo. Segundo João Paulo Eguea, professor de engenharia aeronáutica da USP, trata-se de um procedimento semelhante ao de um carro na estrada, mas com a complexidade adicional da altitude. “É a mesma coisa que um carro. Você vê o carro na rodovia, desvia. Só que no ar, além de um lado e outro, tem para cima e para baixo”, explicou.

Apesar da aparência de informalidade, o voo visual é regulamentado e seguro, afirma Eguea. Rotas aéreas pré-determinadas, com altitudes específicas para ida e volta, e comunicação via rádio entre pilotos na mesma frequência ajudam a evitar colisões. Em cidades como São Paulo, há ainda contato com controladores aéreos que informam sobre o tráfego.

Fatores que podem ter contribuído

Os especialistas apontam que o acidente pode ter ocorrido devido à invasão de uma rota por uma das aeronaves ou ambas estarem em posição indevida. Raul Marinho, diretor da Abag (Associação Brasileira de Aviação Geral), destacou que “o ponto-chave é entender como e por que um dos helicópteros saiu das chamadas 'avenidas virtuais' no ar”.

As aeronaves envolvidas não eram obrigadas a possuir o sistema anticolisão TCAS, comum em aviões maiores. Sem esse equipamento, a segurança depende exclusivamente da visão do piloto. Marinho comentou que “obrigar o uso de TCAS pode ser uma medida mitigadora, mas desconheço algum lugar que obrigue o uso”.

Investigação da Anac sobre transporte clandestino

A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) informou que vai apurar se o helicóptero que transportava os quatro passageiros e o piloto operava de forma clandestina. Segundo a agência, ambas as aeronaves estavam regulares para voos de aviação privada, que não podem ser remunerados. Para transporte de passageiros com pagamento, é necessária uma empresa de táxi-aéreo certificada.

A Anac confirmou que, em 2025, houve uma denúncia de que a aeronave PP-MAC (envolvida no acidente) fazia transporte clandestino. O proprietário teria recusado a exibir documentos, recebendo multa de R$ 8.000. A aeronave foi incluída em lista de monitoramento, mas não foi localizada. A agência ressaltou que “é precipitado fazer qualquer associação entre a modalidade do voo e o acidente”.

Próximos passos

As investigações do Cenipa buscam esclarecer as causas da colisão. A Força Aérea Brasileira, que controla o órgão, não respondeu se as aeronaves emitiam sinais de transponder normalmente ou se mantinham contato com o controle de tráfego aéreo. A Anac reforçou a recomendação de que passageiros consultem o sistema Voe Seguro antes de contratar serviços de táxi-aéreo.