O ex-ministro e candidato ao governo do Ceará, Ciro Gomes (PDT), afirmou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-presidente Jair Bolsonaro são 'rigorosamente iguais' em termos de política econômica, exceto pela 'estética'. A declaração foi dada em entrevista à revista VEJA, na qual ele também criticou a gestão petista, descartou apoio ao senador Flávio Bolsonaro e explicou as razões para não disputar a Presidência pela quinta vez.

Recusa ao PSDB e opção pelo Ceará

Ciro recusou o convite do PSDB para concorrer ao Palácio do Planalto e optou por tentar retornar ao governo do Ceará, cargo que ocupou entre 1991 e 1994. Pesquisas recentes mostram sua liderança nas intenções de voto, à frente do atual governador petista Elmano de Freitas. A segurança pública é sua prioridade, diante dos altos índices de violência e da infiltração do crime organizado no estado.

Lula e Bolsonaro: 'iguais' na economia

Questionado sobre alianças regionais, Ciro afirmou que 'tirando a estética, os dois são rigorosamente iguais' e citou políticas como câmbio flutuante, superávit primário, meta de inflação, autonomia do Banco Central, paridade de preços internacionais da Petrobras, reforma da Previdência e privatizações. 'Fui candidato a presidente disputando com Lula e Bolsonaro', lembrou.

'A nossa desavença nacional com o PL é insuperável. Apoiar Flávio Bolsonaro não está em discussão.'

O pedetista rejeitou qualquer possibilidade de aliança com Flávio Bolsonaro, mas aceitou o apoio do PL no Ceará, justificando a diferença entre as instâncias nacional e estadual. 'A cultura política de Santa Catarina é completamente distinta da do Ceará', argumentou.

Condenação de Bolsonaro e atos de 8 de janeiro

Sobre a condenação de Jair Bolsonaro pelo STF, Ciro afirmou que houve 'sem dúvida' tentativa de golpe de Estado. 'Golpe de Estado é um crime peculiar, só punível na versão tentativa', explicou. No entanto, classificou os atos de 8 de janeiro como 'uma imensa arruaça' e considerou as penas 'absolutamente exageradas'. Para ele, o episódio não configura golpe.

Críticas à gestão Lula

Ciro disse que o 'estelionato eleitoral' que projetou em 2022 'ainda está em marcha'. Apontou o arcabouço fiscal como 'uma mentira' e afirmou que os R$ 273 bilhões de gastos extras previstos para este ano estão 'fora do arcabouço'. Sobre educação, mencionou 71% de evasão no ensino médio e classificou a gestão como 'um desastre completo'. Ele também destacou o recorde de carga tributária e criticou o programa Desenrola, afirmando que 'só transforma dívida ruim em crédito bom para banco'. Citou ainda que 82 milhões de pessoas estão inadimplentes no SPC e 9 milhões de CNPJs estão negativados na Serasa.

Idade do presidente

O ex-ministro defendeu que a idade dos candidatos seja debatida na campanha, referindo-se a Lula, de 81 anos. 'As pessoas que querem bem ao Lula deveriam considerar uma temeridade ele se lançar candidato com 81 anos', declarou, embora tenha dito esperar que ele viva 'mais cinquenta anos'.

Escândalo do INSS e Carlos Lupi

Ciro chamou o caso de descontos fraudulentos no INSS de 'um dos escândalos mais enojantes' que testemunhou. Mencionou R$ 6 bilhões em descontos não autorizados e R$ 90 bilhões em crédito consignado irregular. Sobre o então ministro da Previdência, Carlos Lupi (PDT), afirmou que o alertou de que Lula o colocara ali para ser 'desmoralizado'.

Classificação do PCC e CV como terroristas pelos EUA

O pedetista considerou 'uma pena' que uma potência estrangeira se autorize a classificar organizações como terroristas, mas reconheceu que a medida pode ajudar a rastrear o dinheiro das facções. 'Os americanos vão achar a origem desse dinheiro. É o que está assustando parte da elite brasileira', disse.

Planos para segurança no Ceará

Ciro afirmou que, se eleito, não pretende 'entrar em favela atirando a esmo'. Ele planeja recrutar jovens para uma 'rede comunitária de inteligência' com cooperação dos EUA e de Israel, país com o qual já trabalhou em seu primeiro governo. 'Vou fazer cirurgicamente a caça do dinheiro e dos chefões', explicou.

Por que recusou a candidatura presidencial

Ciro declarou que, até a eleição passada, acreditava que poderia resolver os problemas do país, mas agora está 'seguro de que não tem jeito'. Citou a dívida galopante, a alta carga tributária, o baixo investimento e a inadimplência recorde. 'O país está quebrando e nós ficamos discutindo o sexo dos anjos', ironizou.

Fadiga do PT no Ceará

Questionado sobre os onze anos de governo petista no estado, Ciro disse haver 'fadiga de material' e que o discurso de que perderia o Bolsa Família caso não votasse no PT 'hoje ninguém acredita mais'. Citou ainda um inquérito que investiga o prefeito de Fortaleza por suposto recebimento de R$ 20 milhões do PCC. 'Se eu vencer, no dia seguinte vou abraçar todo mundo do estado', concluiu.

Entrevista publicada em VEJA, edição nº 3000, de 19 de junho de 2026.