O terceiro maior contribuinte para o aquecimento global atualmente não consta das contagens oficiais de gases de efeito estufa nem é mencionado nos planos de redução. Uma análise publicada na revista Science no dia 11 defende que o mundo tome medidas para abordar esses poluentes negligenciados.

Gases indiretos de efeito estufa

Os gases de efeito estufa indiretos são gerados pela queima de combustíveis fósseis ou pela dispersão de produtos químicos industriais. Incluem monóxido de carbono, óxidos de nitrogênio e compostos orgânicos voláteis não metânicos (COVs). Eles não retêm calor por si só, mas ao atingirem a atmosfera participam de reações químicas que formam gases que retêm calor, como o ozônio troposférico, um gás tóxico presente na baixa atmosfera.

Junto com o carbono negro, esses gases são responsáveis por cerca de 15% do aquecimento global até o momento, ou quase 0,3°C, de acordo com a análise.

Impacto no aquecimento global

Os gases de efeito estufa diretos mais conhecidos — dióxido de carbono, metano e óxido nitroso — são os principais causadores das mudanças climáticas. No entanto, os cientistas só recentemente conseguiram calcular a contribuição individual de cada composto indireto para o aquecimento. O monóxido de carbono e os COVs são responsáveis por reter mais calor de forma indireta (0,25°C) do que o óxido nitroso, um gás de efeito estufa direto, retém de forma direta (0,1°C).

Nem todas essas substâncias provocam apenas aquecimento: os óxidos de nitrogênio, por exemplo, podem ter efeito de resfriamento.

“Converso com muitos líderes da indústria que dizem: ‘Bom, esses não são gases de efeito estufa’. Ou até sobre o ozônio troposférico: ‘Isso não é um gás de efeito estufa’”, afirmou Ilissa Ocko, autora do artigo e cientista climática sênior da organização Spark Climate Solutions. “Embora seja obviamente um gás de efeito estufa, do ponto de vista científico, ele não está na ‘cesta’.”

Cesta de Kyoto e novas inclusões

Dezenas de países definiram seis gases de efeito estufa como preocupantes quando assinaram o acordo climático de Kyoto, no Japão, em 1997. Dióxido de carbono, metano e óxido nitroso estão entre os poluentes mais conhecidos. Um sétimo gás foi adicionado alguns anos depois. Desde então, negociações, pactos e políticas têm visado a “cesta de gases de Kyoto”, que não inclui os gases indiretos.

Os autores da nova análise — vários dos quais trabalharam nos governos de Barack Obama ou Joe Biden — defendem a inclusão desses poluentes na lista. Além disso, à medida que a indústria utiliza hidrogênio como fonte de energia, o vazamento de hidrogênio molecular, a quarta substância analisada, também pode contribuir para o aquecimento nas próximas décadas.

O momento é propício, segundo Ocko, porque esforços recentes para reduzir metano, óxido nitroso e hidrofluorcarbonetos (HFCs) prepararam o terreno para a discussão. “Os gases de efeito estufa indiretos passaram despercebidos. Agora é o momento certo para chamar mais atenção para essa questão e ver se conseguimos avançar e enfrentar todos os principais causadores das mudanças climáticas”, disse.

Desafios e próximos passos

Os gases de aquecimento indireto já são regulamentados em muitas partes do mundo por seus efeitos tóxicos à saúde. Ocko afirma que saber que eles também impactam o clima deve ter implicações políticas. Os governos podem monitorá-los mais de perto na atmosfera, além do foco atual nos dias de pico de poluição nas cidades. Os trópicos, que recebem mais sol, têm níveis mais altos desses gases, exigindo mais informações para cientistas interessados no panorama global.

“Se fizermos algo a respeito, poderemos descobrir novas oportunidades para desacelerar o aquecimento no curto prazo”, afirmou Ocko.

O desafio, segundo Vaishali Naik, do Laboratório de Dinâmica de Fluidos Geofísicos da NOAA (agência oceânica e atmosférica dos EUA), que não participou da análise, é medir com precisão os impactos climáticos de cada composto e sua origem. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU deve publicar no próximo ano um relatório padronizando métodos de pesquisa para gases indiretos e outras substâncias que permanecem no ar por menos de duas décadas. Naik apoiou o apelo por mais pesquisas e melhor contabilização para orientar políticas, “o que será desafiador no atual ambiente geopolítico”.