O cientista político Creomar de Souza, sócio-fundador da Dharma Politics, avalia que o senador Flávio Bolsonaro não possui a influência política que alega ter junto ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não pode sustentar indefinidamente discursos de defesa da soberania brasileira. A análise ocorre após quatro decisões do governo americano anunciadas recentemente, que redefiniram as estratégias de campanha dos dois candidatos mais bem posicionados nas pesquisas de intenção de voto para as eleições de outubro.

“Explorar os episódios eleitoralmente faz parte do jogo, mas Flávio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo tentam se vender como atores políticos das tomadas de decisão de Mar-a-Lago, quando, na verdade, eles são passageiros nesse processo”, afirmou Souza. “O que a direita antissistêmica no Brasil não entendeu ainda é que a agenda de comércio desse grupo político republicano busca conversar com um eleitorado interno dos Estados Unidos e está voltada a interesses econômicos americanos.”

“Quando se pensa em termos de relação bilateral com os Estados Unidos, mesmo o discurso de soberania do Lula tem limites porque ninguém tem a ilusão de que ele vai subir no palanque e declarar guerra com uma arma na mão”, completou.

Entre as medidas americanas estão a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho como organizações terroristas, a indicação de um deputado republicano ligado ao secretário de Estado Marco Rubio como futuro embaixador no Brasil, e a divulgação de conclusões de investigações sobre trabalho forçado e supostas práticas anticoncorrenciais do país — que incluem desde o sistema de pagamentos Pix até tarifas de exportação e venda de produtos falsificados na rua 25 de Março —, indicando a imposição de tarifas que podem chegar a 37,5% sobre determinados produtos brasileiros.

Para Souza, embora a pauta de relações internacionais historicamente não seja prioritária em campanhas presidenciais, os Estados Unidos entraram como personagem na corrida eleitoral brasileira porque a Casa Branca quer manter a América Latina como “uma área de influência hermeticamente fechada a riscos e contestações”. O recado atinge as ambições da China na região, mas também serve como plataforma política para o eleitor interno americano e para Marco Rubio, que pretende rivalizar com o vice-presidente JD Vance pela indicação republicana nas próximas eleições americanas.

“Os Estados Unidos são um player novo na eleição presidencial no Brasil. A premissa de relação dos Estados Unidos com a América Latina mudou com o retorno de Donald Trump à Casa Branca, que, em termos regionais, trabalha numa lógica de amigo e inimigo”, comentou Souza. Ele citou como exemplos o processo de abdução de Nicolás Maduro na Venezuela e a promessa não cumprida de socorro financeiro caso Javier Milei fosse bem-sucedido nas eleições legislativas na Argentina.

Ao final, o cientista político afirmou que “o que atores como o Brasil vão ter que entender e se preparar, tanto do ponto de vista público quanto privado, é que o jogo está mudando muito rápido”. “É preciso que o país se municie de instrumentos novos de ação sob o risco de ser atingido por um meteoro que não está vendo chegar”, disse.

As propostas de tarifaço ainda dependem de aval expresso de Trump. Quando a Casa Branca anunciou tarifas recordes contra o Brasil no ano passado, entre outras alegações, por pressão para que o ex-presidente Jair Bolsonaro não fosse condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) na trama golpista, Lula catapultou a aprovação do governo após adotar o discurso em defesa da soberania. Pesquisas eleitorais devem medir nos próximos dias os impactos da ofensiva de Trump nas intenções de voto de eleitores de Lula e Flávio Bolsonaro.

Com informações de Veja.