China e Estados Unidos são as únicas potências com capacidade real de disputar a infraestrutura global da inteligência artificial. A avaliação é do pesquisador chinês Jeff Xiong, secretário-geral do Fórum Acadêmico do Sul Global e estudioso da soberania digital. Em entrevista ao Brasil de Fato, ele analisou as diferenças na relação entre Estado, empresas de tecnologia e dados.

Segundo Xiong, apenas os dois países possuem condições de competir na corrida pelos modelos de linguagem mais avançados. Para a maioria das nações, construir uma infraestrutura digital nacional do zero já não é viável, pois os custos são medidos em trilhões de dólares. "Países como Brasil, África do Sul e até mesmo a Índia já perderam a janela histórica para construir sozinhos um conjunto tecnológico completo e independente", afirmou.

Declínio dos EUA e risco de nova dependência

O pesquisador relata que, nos meios acadêmicos e políticos chineses, o declínio dos Estados Unidos é visto como um processo em curso, e não mais como hipótese. Apesar disso, ele alerta que a substituição da dependência estadunidense pela chinesa seria "uma tragédia para o Sul Global". "Se tudo o que acontecer for trocar um império por outro, nada terá sido resolvido", sustentou.

Xiong defende que a soberania digital não se resume a escolher entre uma matriz tecnológica ou outra, mas sim à capacidade de negociar controle sobre dados, infraestrutura e políticas. Ele aponta que os Estados Unidos mantêm mecanismos consolidados de influência, como lobby empresarial e pressão política, enquanto a China ainda não definiu claramente seu papel nessa cooperação.

Semelhanças e diferenças entre big techs

Ao comparar plataformas como TikTok e Facebook, o pesquisador reconhece semelhanças, mas destaca uma diferença central: as empresas chinesas operam sob um sistema político em que o Estado mantém capacidade real de regular o capital privado. "Na China existe luta de classes. Empresas como Alibaba e Baidu são capitalistas, mas o Partido Comunista Chinês e o Estado passaram anos limitando a expansão desordenada do capital", explicou.

Enquanto as companhias americanas estão "integradas ao aparato de inteligência e segurança dos EUA", Xiong afirma que as chinesas "não possuem interesse em espionagem política". Ele cita a posição histórica da China de não interferir em assuntos internos de outros países e a compartimentação do sistema burocrático chinês como fatores que dificultariam operações coordenadas de espionagem.

Regulação e desafios para o Sul Global

Xiong elogia a experiência chinesa de regulação digital, que inclui combate a monopólios, exigência de identificação de conteúdos gerados por IA e proteção de crianças na internet. No entanto, ele ressalta que a implementação dessas políticas em outros países enfrenta obstáculos, pois grandes plataformas funcionam como instituições supranacionais, com poder de pressionar governos.

"Como um país relativamente pequeno pode regular uma empresa cujo proprietário é uma das pessoas mais ricas do planeta?", questionou. Para ele, a saída está em construir alternativas de infraestrutura — servidores, nuvem, redes 5G — que ampliem a capacidade de negociação. Nesse ponto, vê uma diferença prática: empresas como a Huawei Cloud podem negociar arranjos para que dados permaneçam sob jurisdição local, algo que considera mais difícil com as americanas.

A entrevista completa será publicada em duas partes. A segunda abordará os impactos da inteligência artificial sobre trabalho e comunicação, além de experiências chinesas de integração da tecnologia à economia real.

Com informações de Brasil de Fato.