O anúncio de um cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã, feito na noite de domingo, 14, marca a primeira vez desde o início do conflito, em 28 de fevereiro, que os dois países demonstram convergência retórica. No entanto, o acordo é descrito por analistas como frágil, incompleto e incerto. A trégua tem duração prevista de 60 dias e ainda não foi assinada; a oficialização está agendada para sexta-feira, provavelmente em Genebra, na Suíça.
Contexto de desconfiança
Este não é o primeiro cessar-fogo anunciado desde o início da guerra. Anúncios anteriores foram repetidamente violados por ataques mútuos, e não há garantias de que o ciclo não se repita. Até a assinatura do documento, "tudo pode desandar", segundo o analista político João Paulo Charleaux. Dois pontos são especialmente sensíveis: o Líbano e o programa nuclear iraniano.

Questão do Líbano e Israel
As negociações envolvem Estados Unidos e Irã, com mediação do Paquistão e do Catar. No entanto, Israel, aliado dos EUA, não teria sido consultado. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, mantém uma agenda própria que inclui ataques ao Hezbollah no Líbano. O Irã condiciona a paz ao fim das hostilidades no território libanês, posição apoiada pelos EUA, mas que pode encontrar resistência de Israel. Caso Netanyahu decida intensificar os ataques para favorecer sua campanha eleitoral, o acordo pode ruir.
Programa nuclear iraniano
A questão do urânio enriquecido, que motivou a guerra, não está explicitamente coberta pelo acordo. Não há cláusulas conhecidas sobre o destino do programa nuclear iraniano. Duas possibilidades se apresentam: o acordo de Genebra pode incluir termos sobre o tema, ou ambos os lados podem optar por adiar o problema, mantendo a desconfiança. Netanyahu há anos alerta que o Irã estaria perto de desenvolver uma bomba nuclear, o que pode gerar novas tensões.

Benefícios imediatos
Apesar das incertezas, o cessar-fogo traz benefícios concretos: o fim dos ataques, a redução de mortes, a liberação do tráfego marítimo no Estreito de Ormuz e a consequente queda no preço do petróleo, com impacto positivo sobre a inflação. "Não é pouca coisa, mas, ainda assim, é menos do que se tinha quando essa guerra começou", afirma Charleaux.