O mercado global de cervejas enfrenta uma retração: as vendas no varejo alimentar, bares e restaurantes caíram 3,5% em 2025 na comparação com 2019, segundo a consultoria Euromonitor. No Brasil, após um pico em 2022, o consumo desacelerou e recuou 5% em 2025 ante o ano anterior. O Anuário da Cerveja 2026, do Ministério da Agricultura, aponta queda de 9% na produção em 2025, para 15,7 bilhões de litros.

Guilherme Machado, gerente de pesquisas da Euromonitor, atribui a retração a mudanças nos hábitos de consumo, perda de poder aquisitivo e aumento nos preços dos insumos. O inverno mais rigoroso de 2025 também contribuiu. Diante disso, a Copa do Mundo surge como oportunidade para impulsionar a demanda, tradicionalmente aquecida em anos de competição.

Novos produtos e estratégias

Para atrair consumidores preocupados com saúde e estética, as fabricantes lançam cervejas sem glúten, com baixas calorias e menor ou zero teor alcoólico. Esses produtos premium custam em média 10% a mais que as versões tradicionais.

A Heineken lançou no Brasil a Heineken Ultimate, com 3,5% de álcool (contra 5% da original), 97 calorias (30% menos) e sem glúten. Mauro Homem, vice-presidente de sustentabilidade e assuntos corporativos da Heineken no Brasil, afirma que o consumo brasileiro é pautado por saúde e estética, citando o crescimento de academias e o uso de canetas emagrecedoras.

O Boteco Sombrinha, na zona norte de São Paulo, criou a Corrida de Boteco, em que os participantes correm 5 km e ganham uma long neck Corona Zero. O sócio Rafael Willow cobra cerca de R$ 100 pelo kit e prepara o próximo evento para 5 de julho. A última corrida atraiu cerca de 300 participantes.

A Ambev, que detém cerca de 60% do mercado, apoia a Corrida de Boteco e usará a Copa para divulgar marcas como Flying Fish e Michelob, ambas sem glúten e com menos calorias. Gustavo Castro, diretor de estratégia e insights da Ambev, destaca que as pessoas buscam opções para um estilo de vida mais equilibrado.

O grupo Petrópolis lançou a Petra Ultra, sem glúten, puro malte e com baixo teor calórico. João Netto, principal executivo de marketing, afirma que a long neck tem apenas 69 calorias, a menos calórica do mercado. A empresa também lançou a Black Princess Zero.

Desafios e tendências

Apesar do crescimento, as cervejas zero representam menos de 2% das vendas totais (Nielsen) ou 5% (Euromonitor). Machado ressalta que essas versões enfrentam o desafio de conquistar mais consumidores. Ele aponta que o futuro pode incluir ingredientes funcionais como cânhamo, canabinoides ou cafeína, dependendo da regulação de cada mercado.

O especialista também menciona o impacto das canetas emagrecedoras, que reduzem o desejo por álcool, e das bets, que redirecionam gastos dos consumidores. Netto, da Petrópolis, afirma que é um novo momento de consumo que a indústria precisa entender, sem lutar contra.

Com informações de Folha — Mercado.