No dia 3 de maio de 2026, o geógrafo baiano Milton Santos completaria 100 anos. Mais do que uma efeméride, a data convoca à reflexão sobre a atualidade de um pensador que, mesmo após sua morte em 2001, parece descrever o noticiário matinal. Sua obra, longe de ser peça de museu, funciona como ferramenta viva para interpretar o presente.
O meio técnico-científico-informacional e a globalização perversa
Em A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção (1996), Milton Santos desenvolveu o conceito de meio técnico-científico-informacional, no qual a informação se torna matéria-prima central e o território condiciona ativamente as desigualdades. Essa visão antecipou a era da inteligência artificial e da plataformização da vida. Segundo o autor, a globalização poderia ser "perversa", e as mesmas redes que conectam mercados financeiros excluem sistematicamente o trabalhador da periferia. A tecnologia sem justiça social não é progresso, mas barbárie com aparência de modernidade.

A cidade como fábrica de pobreza
Em A Urbanização Brasileira (1993), o geógrafo mostrou que a metrópole não é um palco neutro, e sim uma fábrica de pobreza. A lógica espacial — vertical para os ricos, horizontal para os pobres, com asfalto que termina onde começa o esgoto a céu aberto — permanece atual. O "circuito inferior" da economia, formado por camelôs e trabalhadores informais, é tratado como sobra, quando na verdade é estrutura.
Território como campo de batalha
Da leitura cruzada de suas obras emerge a tese de que Milton Santos estaria hoje ao lado dos movimentos populares por moradia, transporte público e internet como direito básico. Para ele, o espaço geográfico é um campo de batalha: quem controla o território decide onde passa o metrô, a coleta de lixo ou a antena de 5G, definindo quem vive e quem morre.
Impacto na saúde coletiva e na gestão pública
Do ponto de vista da saúde coletiva, a obra de Milton Santos oferece um arsenal teórico ainda pouco explorado. Decisões sobre localização de equipamentos de saúde, saneamento e transporte não são técnicas neutras, mas sim escolhas espaciais que produzem ou reduzem desigualdades. Um sistema de saúde universal só se concretiza quando o território é organizado para garantir acesso equitativo.
Uma geografia da esperança ativa
O pensamento 'miltoniano' ensina que não há transformação social sem transformação espacial. Ocupar um território é ocupar uma possibilidade, e garantir o direito à cidade é garantir o direito à vida digna. Sua geografia é, no fundo, uma geografia da esperança — mas uma esperança ativa, que exige projeto político.
Legado e chamado à ação
Celebrar os 100 anos de Milton Santos não é um exercício saudosista, mas um gesto político. Intelectual negro, filho do interior da Bahia e doutor honoris causa em universidades do mundo, ele explicou o mundo sem esquecer do Beco dos Tamoios, em Salvador, onde começou a observar o espaço vivido. Sua obra não é um manual, mas um método que cabe a sanitaristas, gestores, professores, pesquisadores e ativistas aplicar ao caos presente. Como ele próprio dizia, o futuro não está dado — está para ser construído, e começa pelo chão que pisamos.
Com informações de Brasil de Fato.