Dados encontrados em celulares apreendidos foram considerados a “prova nuclear” para que a Justiça de São Paulo aceitasse a denúncia do Ministério Público estadual (MPSP) contra a advogada e influenciadora Deolane Bezerra. Além dela, Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, líder do Primeiro Comando da Capital (PCC), e membros de sua família também se tornaram réus. As investigações da Polícia Civil de São Paulo e do MPSP apuram suspeitas de organização criminosa e lavagem de capitais.

Segundo os autos, Deolane atuava como receptora de valores da facção e era beneficiada por operações realizadas por uma transportadora de fachada, que teria sido criada pelo PCC para ocultar a origem ilícita dos recursos. As provas foram extraídas principalmente de celulares apreendidos com Ciro Cesar Lemos, apontado como operador financeiro responsável pelo repasse e divisão de quantias entre líderes da organização.

As provas contra Deolane

As evidências contra a influenciadora surgem, em grande parte, de mensagens trocadas entre operadores financeiros da organização, capturadas nos celulares de Ciro e Everton de Sousa (conhecido como “Player” ou “Temer”). Entre setembro de 2020 e maio de 2021, no aplicativo Telegram, Everton indicou a conta bancária de Deolane para recebimento de valores ilícitos. Para a conta da influenciadora seria repassado um valor de R$ 14.500,00, representando uma fração de um total de R$ 29.000,00 a ser repartido entre Marcola e Alejandro. Os depósitos fracionados recebidos por Deolane vinham diretamente da Transportadora Lado a Lado, a mando de Everton.

Áudios enviados pela advogada a uma diarista foram identificados, nos quais ela indica que mantinha valores pertencentes ao PCC em seus imóveis e nos imóveis de seus filhos. As movimentações analisadas somam R$ 27.002.774,72, valor considerado incompatível com sua capacidade econômica declarada.

As provas contra Marcola

As provas contra Marcola concentram-se nos aparelhos apreendidos com Ciro. Mensagens no Telegram entre agosto de 2020 e abril de 2021 incluem áudios enviados por Ciro, nos quais afirma que trabalhava há quatro anos para Alejandro e Marcola. Há registros de depósitos documentados em favor de Marcola, que o vinculam diretamente ao canal de lavagem de capitais da Transportadora Lado a Lado. Indícios apontam que Marcola era o beneficiário final de parte dos repasses financeiros operados pela transportadora.

Entenda o caso

A investigação teve início em 2019 após a apreensão de manuscritos no presídio de Presidente Venceslau e identificou a Transportadora Lado a Lado como instrumento de branqueamento de recursos da facção. Segundo os autos, a empresa era utilizada para pulverizar depósitos e ocultar a origem ilícita de valores provenientes do tráfico de drogas. A denúncia descreve o uso da projeção pública de Deolane como camada de legalidade para integrar recursos da organização ao sistema financeiro. Com a decisão, os réus serão citados pessoalmente para apresentar resposta à acusação no prazo de 10 dias. Deolane continuará presa na penitenciária de Tupi Paulista, no interior de São Paulo.

Defesas se manifestam

A defesa de Deolane Bezerra tomou ciência do recebimento da denúncia e ressaltou que o ato é inicial e não implica culpa. Em nota, os advogados reiteram a inocência da influenciadora, a origem lícita de seus rendimentos e a inexistência de vínculos com o crime organizado, afirmando que utilizará todas as provas para esclarecer o caso. A nota na íntegra diz:

“A defesa de Deolane Bezerra, patrocinada pelos advogados Aury Lopes Jr., Josimary Rocha de Vilhena, Luiz Ricardo Rodrigues Imparato e Rogério Nunes, tomou ciência do recebimento da denúncia oferecida pelo Ministério Público, ato processual inicial que não representa qualquer conclusão acerca dos fatos imputados. A defesa afirma que utilizará todos os meios de prova necessários ao esclarecimento do caso, afastando qualquer alegação de ilicitude ou conduta criminosa, uma vez que sua cliente é inocente, seus rendimentos possuem origem lícita e regularmente declarada e Deolane não possui qualquer vínculo com o crime organizado.”

A defesa de Marcola e seus familiares também se manifestou. A nota na íntegra afirma:

“Bruno Ferullo, advogado de Marco Willians Herbas Camacho, Paloma Sanches Herbas Camacho, Leonardo Alexander Ribeiro Herbas Camacho e Alejandro Juvenal Herbas Camacho Junior, vem a público informar que a denúncia (...) foi recebida pelo Juízo da 3ª Vara da Comarca de Presidente Venceslau no dia 16 de junho. A Defesa reitera que Marco Willians Herbas Camacho e Alejandro Juvenal Herbas Camacho Junior encontram-se custodiados em estabelecimento penal federal de segurança máxima desde fevereiro de 2019, submetidos a severas restrições de contato e comunicação, o que, por si só, torna inviável qualquer participação nos fatos investigados e evidencia o equívoco da acusação. Leonardo Alexander Ribeiro Herbas Camacho e Paloma Sanches Herbas Camacho também refutam integralmente as imputações formuladas. A Defesa destaca que o mero vínculo familiar com os demais denunciados não pode ser confundido com participação criminosa, sendo inaceitável que a simples proximidade afetiva sirva de fundamento para uma acusação desta magnitude. Quanto aos elementos de natureza patrimonial e financeira mencionados na denúncia, a Defesa esclarece que eles serão devidamente contextualizados no decorrer da instrução processual, oportunidade em que serão apresentados os esclarecimentos e as provas pertinentes acerca da origem e da regularidade das operações apontadas pela acusação. A Defesa, diante da acusação apresentada, adotará todas as medidas processuais cabíveis para demonstrar a fragilidade da narrativa acusatória e a improcedência das imputações atribuídas aos seus constituintes, confiando que, ao final da regular instrução processual, a verdade dos fatos será devidamente reconhecida pelo Poder Judiciário.”