Uma pesquisa conduzida por cientistas do Brasil e do Uruguai confirmou a presença do camarão-gigante-da-malásia (Macrobrachium rosenbergii) em diversas áreas de conservação ao longo da costa brasileira, incluindo estuários reconhecidos pela Unesco como Patrimônio Mundial Natural. O crustáceo, considerado um predador oportunista e altamente adaptável, compete com espécies nativas por alimento e abrigo, além de atuar como potencial vetor de doenças.
O estudo, publicado em fevereiro, foi liderado pelo oceanógrafo Edison Barbieri, diretor do Núcleo Regional de Pesquisa do Litoral Sul, do Instituto de Pesca de São Paulo. Segundo Barbieri, a investigação surgiu da constatação de que, apesar de registros anteriores do camarão invasor em diferentes regiões do país, não havia monitoramento sistemático em unidades de conservação.

Os esforços se concentraram no Complexo Estuarino-Lagunar de Cananéia-Iguape-Ilha Comprida, no extremo sul paulista, área que integra a Reserva da Biosfera da Mata Atlântica e é reconhecida pela Convenção de Ramsar. Entre 2015 e 2025, os pesquisadores registraram 68 ocorrências únicas do camarão-gigante-da-malásia em 10 áreas protegidas da costa brasileira, a maioria (44) em Áreas de Proteção Ambiental (APAs).
A pesquisa também identificou fêmeas ovígeras, comprovando que a espécie não apenas sobrevive, mas se reproduz no ambiente natural. De acordo com Barbieri, "isso indica que a espécie está efetivamente estabelecida". O padrão sazonal observado, com maior incidência nos meses mais quentes, sugere que o aquecimento dos oceanos pode favorecer ainda mais sua proliferação.

Ernesto Brugnoli Olivera, professor da Universidade da República do Uruguai e coautor do estudo, destacou a ampla tolerância térmica e a plasticidade ecológica do camarão. "Trata-se de uma espécie altamente adaptável, capaz de sobreviver em diferentes condições de salinidade e temperatura, o que facilita sua dispersão", afirmou.
Impactos ecológicos e socioeconômicos
Originário da Ásia, o camarão-da-malásia foi introduzido no Brasil na década de 1970 para a aquicultura. Desde então, escapou dos viveiros e colonizou ambientes naturais do Norte ao Sul do país. Os impactos incluem competição com espécies nativas, como o camarão-da-amazônia, e o risco de transmissão de patógenos, como o vírus da síndrome da mancha branca, que já causou prejuízos à carcinicultura mundial.

Pescadores artesanais relatam mudanças drásticas. Nilson Monteiro do Nascimento, que trabalha há 40 anos em Curuçá, no Pará, contou que a presença do camarão invasor coincidiu com o desaparecimento de espécies regionais. "Hoje, para pegar 5 ou 10 quilos de camarão nativo, é muito difícil. Antes, a gente trabalhava com toneladas por semana", disse. Ele acrescentou que o predador se alimenta de outros camarões e organismos costeiros, afetando a produção local.
Diante desse cenário, os pesquisadores defendem ações urgentes. Barbieri enfatizou a necessidade de programas contínuos de monitoramento, revisão de licenciamentos aquícolas e estudos aprofundados sobre interações entre espécies. Os autores também pedem políticas públicas mais rigorosas e vigilância reforçada, alertando que a invasão em Cananéia "simboliza uma falha na prevenção e no controle de espécies exóticas associadas à aquicultura".
O estudo, que envolveu amostragem de campo, monitoramento participativo com pescadores, consulta a bancos de dados e revisão de literatura, reforça a importância do diálogo entre ciência e comunidades locais. Para os pesquisadores, o tempo é crítico: quanto maior o atraso nas medidas de mitigação, maiores podem ser os custos ambientais, econômicos e sociais.
Com informações de Mongabay Brasil.