No distrito de Banda, no estado indiano de Uttar Pradesh, a vida foi reorganizada para suportar uma das ondas de calor mais intensas já registradas. Durante mais de uma semana em maio, as temperaturas máximas se mantiveram entre 47°C e 48°C, tornando a região a mais quente do país. Os mais de 2 milhões de habitantes, em sua maioria trabalhadores da agricultura, construção e transporte, não tiveram alternativa senão adaptar suas rotinas ao calor extremo.

Mercados fecham antes das 10h

A 30 quilômetros do centro de Banda, o mercado de hortaliças de Atarra passou a encerrar as atividades antes que a maioria das cidades desperte. Agricultores chegam ao amanhecer com tomates, abóboras, pimentas, limões e melões, na expectativa de vender rapidamente e voltar para casa antes que o calor se intensifique. "Olhem o sol", disse Himanshu, comerciante, às 6h15. "São apenas 6h15, mas parece que são 8h ou 9h." O calor também encurta a vida útil dos produtos: "Uma caixa de tomates precisa ser vendida hoje ou amanhã. Com esse clima, eles não duram." O movimento, que antes se estendia até o fim da manhã, agora começa a esvaziar às 8h. Às 10h, o mercado está quase deserto.

Trabalhadores dividem a jornada

Pappu Verma, pedreiro, agora trabalha das 7h ao meio-dia e depois das 16h às 19h, passando as quatro horas mais quentes do dia em descanso. "Ainda assim você tem que cumprir oito horas", afirma. "Trabalhe sem parar no sol ou pare e recomece, o pagamento é o mesmo." O descanso evita dores de cabeça e tontura, mas estica sua jornada para 12 ou 13 horas. "O que eu ganho seria gasto com remédio", comenta.

Por volta das 14h, quando a temperatura chegou a 46°C, três trabalhadoras se abrigaram sob um caminhão-pipa em uma rodovia sobre a ponte do rio Ken para almoçar à sombra do chassi. Shanti Devi, que caminha seis quilômetros até o trabalho e mais seis na volta, almoçava pão com cebola, sal e picles. "Se a gente levar legumes, estragam antes do meio-dia", explicou. "Os pobres não podem se dar ao luxo de se preocupar com o calor."

Rio Ken e perda de vegetação agravam quadro

Pesquisadores apontam que a extração de areia e o esgotamento das águas subterrâneas reduziram a capacidade do rio Ken de refrescar a paisagem, criando um círculo vicioso entre escassez de água e temperaturas extremas. Um estudo da Universidade de Agricultura e Tecnologia de Banda concluiu que quase um sexto da densa cobertura florestal do distrito desapareceu entre 1991 e 2022, principalmente devido à expansão da mineração e da agricultura. O concreto substituiu a vegetação, e a cobertura de árvores caiu muito abaixo dos níveis recomendados.

Impacto econômico e na saúde

Motoristas de tuk-tuk elétrico enfrentam tardes sem passageiros. Comerciantes abrem antes do nascer do sol e fecham entre o meio-dia e as 16h, com o número de clientes reduzido à metade. Vilarejos inteiros se refugiam em casa nas horas mais intensas. Hospitais locais recebem de 15 a 20 casos por dia de pacientes com diarreia, vômito e febre, em sua maioria crianças e idosos, segundo K. Kumar, superintendente médico-chefe do Hospital Distrital da Mulher.

Calor noturno e falta de água

As temperaturas noturnas ficam em torno de 30°C, impedindo que a população se refresque completamente. "Parece que as manhãs e as noites não existem mais", afirma Dinesh Sah, meteorologista da universidade local. No vilarejo de Achharaund, um único poço fornece grande parte da água potável. Kranti Vishwakarma, de 18 anos, passa quatro ou cinco horas por dia buscando água. "Não temos geladeira nem ar-condicionado. Para nós, as árvores de nim fazem esse papel." Chunubadi, de 80 anos, sentada ao lado de um ventilador improvisado, observa: "Nos meus 80 anos, nunca vi um calor como este. As pessoas mais velhas morrem em situações de frio ou calor extremos. Não sei se conseguirei suportar isso."

Adaptação, mas não alívio

Rameshwar Yadav, de 60 anos, criador de búfalos, usa roupas grossas mesmo sob calor de 46°C. "Usamos roupa grossa porque ela não deixa o calor do sol chegar ao corpo", explica. "O tecido grosso nos protege do sol e dos ventos quentes. Sim, faz suar, mas também evita que a gente adoeça." Uma mudança no tempo vinda do oeste trouxe tempestades de poeira e chuva, reduzindo as temperaturas em 8 a 9 graus. As rotinas desenvolvidas pelos moradores — começar a trabalhar antes do amanhecer, recolher-se ao meio-dia, buscar sombra — deixaram de ser adaptações para se tornar uma necessidade.

Um estudo da Universidade da Califórnia em Berkeley estima que Uttar Pradesh pode registrar mais de 8 mil mortes adicionais durante uma onda de calor intensa de cinco dias. O impacto recai de forma desproporcional sobre idosos, trabalhadores ao ar livre e famílias sem acesso confiável à refrigeração. Os moradores de Banda, porém, parecem menos alarmados que os cientistas. O que preocupa os pesquisadores não é o fato de o distrito ser quente, mas de estar ficando cada vez mais quente, por períodos mais longos, em uma paisagem que perde árvores e água.

Com informações de Folha — Cotidiano.