O líder indígena Raoni Metuktire, de 94 anos, foi submetido a uma endoscopia digestiva alta na tarde de terça-feira (16). O exame, realizado no centro cirúrgico do Hospital e Maternidade Dois Pinheiros, em Sinop (MT), contou com sedação e acompanhamento anestésico, conforme boletim médico. O cacique permanece internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) da unidade.
Internação e evolução clínica
Raoni deu entrada no hospital no domingo (14) após apresentar episódios de vômito durante o final de semana. De acordo com a instituição, nas últimas 24 horas o quadro gastrointestinal evoluiu de forma estável. “Raoni segue recebendo suporte nutricional por meio de nutrição parenteral e permanece sob acompanhamento permanente da equipe multiprofissional. O paciente encontra-se hemodinamicamente estável, com boa saturação de oxigênio, responsivo e orientado”, informou o hospital em comunicado.
Apesar da melhora, a equipe médica optou por mantê-lo sob cuidados intensivos devido à idade avançada e ao quadro clínico geral.
Histórico de saúde recente
Esta não é a primeira internação do cacique neste ano. Em 7 de maio, ele foi hospitalizado no mesmo hospital devido a uma hérnia crônica. Na ocasião, o Instituto Raoni suspendeu sua agenda de compromissos. Dois dias depois, em 9 de maio, recebeu alta.
No dia 12 de maio, apresentou nova indisposição, sendo atendido inicialmente na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Peixoto de Azevedo e, em seguida, no Hospital Regional do município. A pedido da família, foi transferido para o Hospital Dois Pinheiros.
Em 14 de maio, foi encaminhado diretamente para a UTI após registrar problemas respiratórios. Recebeu alta em 25 de maio, mas retornou ao hospital em 15 de junho.
Trajetória do líder indígena
Ropni Metyktire, mundialmente conhecido como Cacique Raoni, nasceu no início da década de 1930 na aldeia Kraimopry-yaka, no nordeste de Mato Grosso, pertencente ao povo Mebêngôkre (Kayapó). Em 1954, quando sua etnia estabeleceu contato definitivo com não indígenas, Raoni tinha cerca de 24 anos e desempenhou papel crucial na pacificação de diversas aldeias.
Nessa época, conheceu os irmãos Villas Boas, com quem aprendeu português e tomou consciência do mundo não indígena. Tornou-se o principal interlocutor entre os Mebêngôkre e a sociedade nacional.
Ao longo da vida, Raoni liderou lutas em defesa dos povos indígenas e da Amazônia, ganhando reconhecimento internacional. Em 1978, foi tema de um documentário indicado ao Oscar; em 1987, após encontrar o cantor Sting, alcançou notoriedade global. Nos anos 1980 e 1990, teve papel fundamental na demarcação dos territórios Mebêngôkre, hoje um dos maiores blocos contínuos de floresta tropical do mundo e barreira contra o desmatamento no leste da Amazônia.
Participou ativamente da Assembleia Constituinte de 1987-1988, que resultou na inclusão dos direitos indígenas na Constituição Federal de 1988. Nas décadas seguintes, realizou viagens pelo mundo, conquistando apoio de lideranças internacionais e captando recursos para demarcação de terras e conscientização sobre a proteção da floresta.
Em 2019, lançou nova campanha alertando sobre o desmatamento na Amazônia e as ameaças à floresta. Em janeiro de 2020, convocou um encontro histórico de lideranças de povos da floresta para reforçar a união contra retrocessos em direitos indígenas e ambientais.