Com pouco mais de 500 mil habitantes, Cabo Verde se tornou a segunda menor nação a se classificar para a Copa do Mundo de futebol masculino. A vaga foi garantida após uma vitória por 3 a 0 sobre Camarões, no ano em que o país celebra 50 anos de independência de Portugal.

O arquipélago de 10 ilhas ingressou na Confederação Africana de Futebol em 1975 e, desde então, classificou-se apenas quatro vezes para a Copa Africana de Nações. Membro da Fifa desde 1986, começou a disputar eliminatórias da Copa do Mundo em 2002. Em 2014, foi desclassificado na fase de mata-mata por escalação irregular de um atleta; em 2022, ficou dois pontos atrás da Nigéria em seu grupo.

A seleção reflete a grande diáspora cabo-verdiana: mais cabo-verdianos vivem no exterior do que no país, que tem cerca de 530 mil habitantes. Dos convocados para o Mundial, 14 nasceram fora do território, como o zagueiro Steven Moreira e o atacante Willy Semedo, ambos nascidos na França. Seis jogadores nasceram em Roterdã, na Holanda, onde há uma comunidade de 20 mil cabo-verdianos. O goleiro e capitão Vozinha, de 40 anos, não vive em sua ilha natal, São Vicente, desde criança.

“A classificação de Cabo Verde é uma das conquistas mais impressionantes da ciência do esporte e do trabalho de olheiros na história do futebol moderno”, afirma Wycliffe W. Njororai Simiyu, acadêmico queniano especializado em Cinesiologia e Ciência do Esporte, professor na Stephen F. Austin State University. “Com uma população de pouco mais de 500 mil habitantes, eles simplesmente não têm números suficientes para depender inteiramente do banco de talentos locais. Em vez disso, sua federação construiu uma rede incrivelmente sofisticada de rastreamento de dados e olheiros focada na diáspora lusófona.”

O país conta com três centros de treinamento construídos com recursos do Fundo Forward da Fifa. A federação também usou o fundo para cobrir custos de viagens durante a qualificação. “Voos pelo continente não são baratos: a recente viagem à Líbia, por exemplo, custou cerca de 390 mil dólares”, destaca o site Africa is a Country.

Simiyu ressalta a influência portuguesa e brasileira no estilo de jogo da seleção. “A conexão portuguesa e brasileira é um fator forte no sucesso de Cabo Verde. A maioria dos principais jogadores — incluindo o histórico capitão Ryan Mendes e o meio-campista Jamiro Monteiro — desenvolveu seu jogo nos sistemas de formação portugueses, como Benfica, Sporting CP e Braga.” Ele explica que o futebol português é conhecido pela rigidez tática e inteligência posicional, enquanto o brasileiro traz criatividade individual. “Cabo Verde combinou os dois: possui organização defensiva metódica, mas permite que seus alas criativos tenham liberdade para se expressar, criando uma identidade híbrida única e altamente competitiva.”

A equipe estreia em Copas do Mundo com jogadores que atuam em ligas de Chipre, Finlândia, Irlanda, Israel e Romênia. No grupo do Mundial, enfrentará dois campeões mundiais, Espanha e Uruguai, além da Arábia Saudita, que derrotou a Argentina no Catar 2022. Liderados pelo treinador Bubista, ex-jogador da seleção, os atletas prometem não se intimidar. A equipe já é considerada uma das maiores zebras da competição.

Com informações de Revista Fórum.