Centenas de brasileiros formaram uma longa fila em Ciudad del Este, no Paraguai, em um mutirão do governo local para agilizar a emissão de documentos de residência. A cena, ocorrida em março, reflete uma onda crescente de imigração de brasileiros para o país vizinho, motivada por fatores econômicos e políticos.

Delly Fragola, de 55 anos, dona de um salão de cabeleireiro em Anápolis (GO), disse que o Brasil não oferece mais oportunidades para seu negócio e que no Paraguai espera encontrar mão de obra mais barata. O empresário Dilberto Wegrnen, de 63 anos, de Cascavel (PR), afirmou que a carga tributária menor e leis trabalhistas mais flexíveis no Paraguai explicam a fila. Ele também criticou o governo Lula.

Em 2025, o Paraguai concedeu 40,6 mil autorizações de residência a estrangeiros, das quais 23,5 mil para brasileiros — mais da metade do total. Nos primeiros três meses de 2026, foram emitidas 9,2 mil autorizações para brasileiros. O governo paraguaio planeja realizar 19 mutirões no ano.

Os brasileiros ouvidos pela BBC News Brasil disseram que a decisão de migrar está ligada a suas posições políticas e à busca por uma vida com mais conforto e menos impostos. Muitos começaram a considerar a mudança após ver vídeos nas redes sociais que destacam as vantagens econômicas do Paraguai, como a baixa carga tributária e a predominância de governos de direita.

Marcelo Mendes, arquiteto aposentado de 70 anos, de Recife, abandonou o plano de ir para Portugal após ver conteúdos na internet. Ele pretende vender sua casa e comprar outra em Encarnación. Zena Cheraze, professora aposentada de 68 anos, viajou do Rio de Janeiro para Ciudad del Este em busca de um plano de saúde mais barato. Ela afirmou que os brasileiros de direita se sentem oprimidos no Brasil.

Cornelio Melgarejo, chefe da imigração no departamento de Alto Paraná, observou que, há dois anos, 80% dos solicitantes de residência eram estudantes de Medicina. Agora, há muitos empresários e aposentados em busca de estabilidade econômica e política. O presidente paraguaio, Santiago Peña, é o nono governante de direita desde a redemocratização.

O governo paraguaio criou os mutirões Migramovil em 2025 para organizar a demanda. A iniciativa reúne órgãos como a Direção Nacional de Migração e a Polícia Nacional. A gestão de Peña busca capitalizar a imigração, promovendo o Paraguai como um país de portas abertas.

Roberta Viegas, carioca que mora há um ano no Paraguai, estima que 99% dos imigrantes são de direita. Ela se mudou com a família por preocupações com a educação dos filhos e a violência urbana no Rio de Janeiro. Marluize Ávila, de 42 anos, do Paraná, pretende educar os filhos em casa (homeschooling), prática que considera mais aceita no Paraguai.

A carga tributária total do Paraguai é de cerca de 14,5% do PIB, enquanto a do Brasil é de 32%. O sistema tributário paraguaio segue a regra 10-10-10, com alíquotas de 10% para os principais impostos. O país também adota o regime de maquila, que atrai fábricas com incentivos fiscais.

O economista Alexandre da Costa, pesquisador da Unila e UFPR, explica que o modelo paraguaio tem gerado crescimento econômico de cerca de 4% ao ano, mas alerta para a sustentabilidade a longo prazo. O Paraguai tem baixa arrecadação, infraestrutura limitada e sistema de saúde fragmentado. A taxa de informalidade no emprego é de 62,5%, contra 37,5% no Brasil.

Apesar das vantagens apontadas, muitos brasileiros na fila disseram não considerar voltar atrás, mesmo que a direita retorne ao poder no Brasil. Joraci de Lima, empresário de 61 anos, afirmou que a carga tributária e a possibilidade de reeleição de Lula o motivam a abrir uma filial no Paraguai.

Com informações de BBC News Brasil.