O Brasil reduziu consecutivamente a taxa de analfabetismo na última década, mas ainda contava com 8,4 milhões de pessoas com 15 anos ou mais que não sabem ler nem escrever em 2025, segundo dados da Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua) do IBGE, divulgados nesta sexta-feira (19). Pela primeira vez, o índice ficou abaixo dos 5%: foi de 4,9%, contra 6,7% em 2016, quando a série histórica começou e o contingente era de 10,6 milhões.

Em relação a 2024, houve uma redução de 0,4 ponto percentual, o que representa cerca de 592 mil pessoas a menos nessa condição. O Brasil tinha como meta erradicar o analfabetismo nessa faixa etária até o fim de 2024, conforme estabelecido pelo Plano Nacional de Educação (PNE).

Nordeste concentra maioria dos analfabetos

Mais da metade dos analfabetos do país, 57,4% (4,8 milhões), vivem no Nordeste — região que abriga 26,5% da população total brasileira. O número de analfabetos no Nordeste supera, por exemplo, a população inteira do Amazonas estimada pela Pnad (pouco mais de 4,1 milhões).

As demais regiões apresentam a seguinte distribuição:

  • Sudeste: 20,4%
  • Sul: 14,8%
  • Norte: 8,2%
  • Centro-Oeste: 7,9%

Segundo William Kratochwill, pesquisador do IBGE, todas as unidades da federação, com exceção do Amapá, reduziram a taxa de analfabetismo no período, mas os estados com percentuais mais elevados continuam no Nordeste, com destaque para Alagoas e Piauí.

Idosos são maioria entre analfabetos

O analfabetismo atinge sobretudo as gerações mais velhas, reflexo de gargalos históricos no acesso à educação. Entre a população com 60 anos ou mais, a taxa é de 13,8% — em 2016, era de 20,5%. Esse grupo representa 58% do total de analfabetos: dos 8,4 milhões, 4,8 milhões são idosos.

Pela primeira vez, houve inversão por gênero nessa faixa etária: a taxa entre mulheres (13,7%) ficou menor que a dos homens (14,1%). “Historicamente a taxa de analfabetismo era maior entre as mulheres. Essa inversão, especialmente entre os mais velhos, sugere avanço na escolarização feminina e aponta para uma possível reversão do legado de desigualdade educacional do passado”, afirmou Kratochwill.

Desigualdades racial e de gênero persistem

Apesar da redução da desigualdade de gênero entre idosos, os dados revelam a persistência da desigualdade racial. A taxa entre pessoas pretas ou pardas com 60 anos ou mais permanece quase três vezes superior à observada entre brancos da mesma faixa etária, evidenciando um legado estrutural de exclusão educacional.

Em relação à conclusão da educação básica, 57,4% das pessoas com 25 anos ou mais haviam terminado o ensino médio em 2025, contra 46% uma década antes. No entanto, a diferença racial persiste: enquanto 64,9% das pessoas brancas concluíram o ciclo básico, apenas 51,3% das pretas ou pardas o fizeram — diferença de 13,6 pontos percentuais (em 2016, era de 16,4). É a primeira vez que mais da metade da população preta e parda concluiu a educação básica.

A média de anos de estudo da população com 25 anos ou mais subiu de 9,1 (2016) para 10,2 (2025). As mulheres estudam em média 10,4 anos, contra 10,0 dos homens. Já a diferença racial é de 1,4 ano: 11,1 anos para brancos e 9,5 anos para pretos ou pardos.

Ensino superior e queda na EJA

A proporção de brasileiros com 25 anos ou mais que concluíram a graduação passou de 15,4% em 2016 para 21,4% em 2025. Contudo, a oferta de Educação de Jovens e Adultos (EJA), modalidade destinada a quem não estudou na idade adequada, caiu ao menor patamar de matrículas desde 1996, conforme mostrou a Folha. A Constituição determina que a oferta de EJA é obrigatória, mas professores e estudantes denunciam o esvaziamento das turmas, com governos concentrando-as em poucas escolas, o que dificulta o acesso.