Especialistas reunidos na segunda edição do Clinical Research Summit Latin America, promovido pelo Hospital Moinhos de Vento em Porto Alegre, em maio, destacaram a dificuldade dos centros de pesquisa brasileiros em encontrar candidatos elegíveis para estudos clínicos. Segundo eles, a falta de conexão entre pacientes e pesquisas compromete o avanço científico e a atratividade do país para novos investimentos.

José Humberto Tavares Guerreiro Fregnani, diretor de ensino, pesquisa e inovação do A.C.Camargo Cancer Center, em São Paulo, afirmou que é comum os centros não completarem o número de pacientes necessários, enquanto potenciais voluntários desconhecem onde há estudos adequados ao seu perfil. "Essa aproximação traria oportunidade aos pacientes brasileiros e um avanço mais rápido nas pesquisas", declarou.

Fregnani sugeriu a criação de um sistema de referenciamento semelhante ao da fila de transplantes. O paciente com indicação clínica seria inscrito em uma lista, e um sistema inteligente faria a conexão com o centro de pesquisa de interesse. Ele apontou que o Ministério da Saúde, com apoio do Proadi-SUS, poderia construir essa plataforma, o que aceleraria a pesquisa clínica e aumentaria a credibilidade do Brasil perante a indústria farmacêutica.

O oncologista clínico José Roberto Rossari, coordenador de pesquisas em oncologia do Hospital Moinhos de Vento, ressaltou que o problema vai além da informação e envolve a logística dos pacientes. "Adianta eu saber de um estudo clínico em Belém se essa paciente mora no interior do Rio Grande do Sul?", questionou. Para ele, tornar factível a participação exige racionalizar deslocamentos e custos, o que é mais complexo do que apenas identificar oportunidades.

O infectologista Alexandre Schwazbold, professor e chefe do Centro de Pesquisa Clínica da Universidade Federal de Santa Maria, defendeu a criação de um cadastro nacional de voluntários, nos moldes do banco de medula óssea. Ele atribuiu a ausência dessa iniciativa ao fato de a pesquisa clínica ainda ser incipiente no Brasil, concentrada em poucos centros de referência. "O próprio Ministério da Saúde nunca teve isso como um capítulo importante", afirmou.

Atualmente, a seleção de voluntários ocorre por indicação médica, divulgação na mídia e busca ativa em universidades e centros de saúde. Um exemplo em andamento é o estudo sobre amiloidose cardíaca conduzido pelo Instituto de Pesquisa do Hospital Moinhos de Vento, que recruta voluntários acima de 18 anos. A doença, rara e de difícil diagnóstico, provoca acúmulo de proteínas no coração e pode levar à insuficiência cardíaca. Interessados podem entrar em contato pelo WhatsApp (51) 3314-3209 ou preencher formulário online.

Com informações de Folha — Equilíbrio e Saúde.