O Brasil foi eleito para integrar o Conselho Econômico e Social das Nações Unidas (ECOSOC), com 181 votos, para um mandato de três anos, de 2027 a 2029. A eleição, que passou quase despercebida no debate público nacional, reacende a discussão sobre a necessidade de espaços permanentes de diálogo, planejamento e construção de consensos para o desenvolvimento do país.
O ECOSOC, um dos órgãos principais da ONU, foi criado em 1945, ao final da Segunda Guerra Mundial, com a percepção de que a paz não poderia ser construída apenas por diplomacia ou segurança militar, sendo necessário enfrentar causas econômicas e sociais dos conflitos, como pobreza, desigualdade e desemprego. Ao longo das décadas, tornou-se um fórum de articulação entre governos, organismos internacionais, universidades, entidades empresariais, sindicatos e organizações da sociedade civil.
O Conselhão e sua trajetória no Brasil
Em 2003, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva criou o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES), conhecido como Conselhão, como uma inovação na experiência democrática brasileira. O país saía de décadas de hiperinflação, crises cambiais e fragmentação social, e havia a percepção de que era necessário construir uma agenda nacional reunindo diferentes setores da sociedade em torno de objetivos comuns. O Conselhão reuniu empresários, trabalhadores, intelectuais, movimentos sociais e lideranças da sociedade civil, contribuindo para formulações ligadas à política industrial, inclusão social, ampliação do crédito e estratégias de desenvolvimento de longo prazo.
Com o passar dos anos, o Conselho perdeu protagonismo. Durante os governos Dilma Rousseff, embora mantido formalmente, deixou de ocupar posição central na formulação de políticas públicas. Em 2019, nos primeiros meses do governo Jair Bolsonaro, o Conselhão foi extinto juntamente com centenas de outros colegiados federais, em uma medida que, segundo analistas, expressava uma concepção de governo que via com desconfiança os mecanismos de diálogo social construídos pela Constituição de 1988. O bolsonarismo desenvolveu uma relação hostil com instituições participativas, privilegiando a lógica de confronto permanente e centralização das decisões.
A recriação do Conselhão pelo governo Lula em 2023 representou uma tentativa de recuperar essa tradição de diálogo. No entanto, o Brasil de hoje é mais polarizado, com redes sociais que fragmentam os espaços de debate e desafios como transição energética, inteligência artificial e mudanças climáticas, que exigem níveis de coordenação superiores aos do passado.
Experiências internacionais de concertação social
A experiência brasileira não surgiu em um vácuo institucional. Diversos países europeus construíram mecanismos permanentes de diálogo entre Estado, empresários, trabalhadores e sociedade civil ao longo do século XX. Na França, o sistema de planejamento indicativo do pós-guerra contribuiu para a reconstrução econômica e os chamados "Trinta Gloriosos". Na Itália, o Conselho Nacional da Economia e do Trabalho (CNEL), criado pela Constituição de 1948, tornou-se referência de participação organizada. Espanha, Portugal, Bélgica e outros países também desenvolveram conselhos econômicos e sociais que institucionalizaram o diálogo entre interesses divergentes.
Na América Latina, experiências semelhantes foram mais raras, e o Conselhão brasileiro representou uma inovação importante e relativamente singular.
A crise do planejamento e a lição asiática
Desde os anos 1980, o Brasil assiste a uma gradual erosão da capacidade estatal de formular projetos nacionais de longo prazo. Instituições como BNDES, Sudene, Eletrobras e Petrobras formavam uma arquitetura voltada à transformação estrutural da economia, mas a crise da dívida externa, o avanço das ideias neoliberais e a financeirização deslocaram o centro das decisões para o curto prazo. Enquanto isso, países asiáticos como China, Coreia do Sul e Singapura preservaram instituições capazes de formular objetivos nacionais e coordenar investimentos, avançando em tecnologia e competitividade.
A experiência chinesa, com seus planos quinquenais que mobilizam milhares de especialistas, é um exemplo de direção estratégica para a sociedade. O Brasil, embora possua sua própria história e cultura política, poderia se beneficiar do aperfeiçoamento de seus mecanismos de coordenação estratégica.
Desafios e perspectivas para o futuro
A participação brasileira no ECOSOC lembra que o desenvolvimento exige diálogo, coordenação e visão de longo prazo. O país precisa discutir como enfrentar a emergência climática sem comprometer o crescimento, transformar a Amazônia em polo de ciência e bioeconomia, aproveitar a revolução da inteligência artificial para gerar empregos qualificados, reconstruir a indústria nacional e reduzir desigualdades regionais. Esses desafios exigem pactos sociais amplos e instituições capazes de reunir conhecimento técnico, legitimidade democrática e capacidade de coordenação.
Um Conselhão fortalecido pode se tornar um fórum permanente para a construção de uma visão compartilhada de futuro. O século XXI assiste ao retorno da política industrial, da disputa tecnológica e do planejamento estratégico, mas muitos países ainda não reconstruíram os espaços de diálogo social para sustentar essas transformações. O Brasil precisa reconstruir as instituições capazes de pensar coletivamente o desenvolvimento.
A proximidade das eleições presidenciais de outubro de 2026 torna essa reflexão ainda mais necessária. O debate público tende a concentrar-se em nomes e alianças, mas a questão fundamental é que projeto de país está sendo apresentado. A eleição decidirá se o país será capaz de reconstruir instituições voltadas ao diálogo, ao planejamento e à construção de consensos nacionais ou se continuará prisioneiro da polarização e do improviso.
Com informações de Revista Fórum.