O Brasil ocupa a quinta posição entre 216 países e territórios em desigualdade de renda, de acordo com o Relatório da Desigualdade Global de 2025, elaborado pelo World Inequality Lab, grupo liderado pelo economista Thomas Piketty. Dados recentes do IBGE mostram que o índice de Gini, que mede a desigualdade, subiu 1,3% entre 2024 e 2025, reforçando um cenário de disparidade que persiste há décadas.

Um estudo publicado no Journal of Economic Inequality em janeiro de 2025 analisou a relação entre a percepção da desigualdade e o bem-estar subjetivo em 33 países. Os resultados indicam que indivíduos que acreditam que a desigualdade aumentou estão, em média, 8% menos satisfeitos com a vida, independentemente dos níveis reais de desigualdade. Ou seja, a percepção tem mais peso sobre a satisfação do que os dados concretos.

Contradição brasileira: desigualdade real e felicidade declarada

Aplicando essa lógica ao Brasil, seria esperado um baixo bem-estar, dada a enorme disparidade econômica. No entanto, o World Values Survey, em sua última onda (2017–2022), revelou que entre 80% e 90% dos brasileiros se declararam "muito felizes" ou "bastante felizes". O World Happiness Report também posiciona o país em patamares elevados de felicidade, enquanto Finlândia, Islândia e Dinamarca lideram o ranking.

Essa aparente contradição levanta hipóteses. Uma possibilidade é que fatores culturais, como praias e Carnaval, atenuem o impacto da desigualdade no bem-estar. Outra é que a percepção dos brasileiros sobre a concentração de renda esteja distante da realidade: os 10% mais ricos detêm entre 40% e 64% da renda nacional, a depender da fonte, mas a população pode não ter plena consciência dessa disparidade.

O estudo do Journal of Economic Inequality sugere que a percepção da desigualdade é crucial para a satisfação com a vida. Assim, o alto bem-estar no Brasil pode indicar que a sociedade não percebe a desigualdade em sua real magnitude, o que explicaria a convivência entre tamanha disparidade e os elevados índices de felicidade.

Com informações de Folha — Mercado.