Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) anunciaram a clonagem do primeiro porco com edição genética destinado a fornecer órgãos para transplantes em humanos, um marco inédito na América Latina. O projeto, que dá continuidade ao legado do médico Silvano Raia — falecido em abril de 2026 aos 95 anos —, representa um avanço no maior programa público de transplantes do planeta, mantido pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Histórico de pioneirismo
O Brasil tem uma trajetória de vanguarda na área. Em 1968, no mesmo ano de fundação da revista Veja, foram realizados os primeiros transplantes de coração e fígado no país. Duas décadas depois, sob liderança de Silvano Raia, a equipe brasileira executou o primeiro transplante hepático entre doador e receptor vivos no mundo, feito que ganhou a capa da publicação. Com o avanço científico e a implantação do SUS, o país consolidou o maior programa público de transplantes, realizando mais de 30 mil procedimentos por ano.
Desafios e nova fronteira
Apesar do volume, a demanda por órgãos supera a oferta, gerando uma longa e angustiante fila de espera. Para contornar esse gargalo, a equipe da USP, que já trabalhava sob orientação de Raia, investiu na edição genética de suínos. O porco clonado tem genes modificados para que seus órgãos não sejam rejeitados pelo sistema imunológico humano, abrindo a possibilidade de uma fonte alternativa e controlada de órgãos. O projeto dá um passo significativo rumo a uma nova era da medicina, em que órgãos poderão ser obtidos de outras espécies sem risco de rejeição ou até mesmo cultivados em laboratório.
Legado de Silvano Raia
Silvano Raia, que faleceu em abril de 2026, foi figura central nessa jornada. Seu trabalho pioneiro no transplante hepático entre vivos e na pesquisa com xenotransplantes deixou uma base sólida para que os cientistas brasileiros continuem na dianteira global. O anúncio do porco clonado é visto como uma homenagem ao seu legado e um marco para o futuro dos transplantes no Brasil e no mundo.