O presidente da Bolívia, Rodrigo Paz, decretou estado de emergência neste sábado (20), após seis semanas de protestos contra sua política neoliberal. A medida, anunciada quando Paz completava sete meses no cargo, precisa ser aprovada ou rejeitada pelo Parlamento em até 72 horas. Se aprovada, autoriza o uso das Forças Armadas para conter as manifestações.
Motivações dos protestos
Os manifestantes criticam as condutas neoliberais do governo, especialmente novas leis para atrair investimentos em hidrocarbonetos, energia e recursos evaporíticos. Também acusam o presidente de pretender privatizar empresas estatais e aumentar tarifas de serviços básicos. As manifestações, que começaram no início de maio, incluem bloqueios de rodovias em todo o país — no auge, mais de 100 vias estavam ocupadas; atualmente, cerca de 50 permanecem bloqueadas.
Acordo com a Central dos Trabalhadores
Antes de decretar emergência, Paz firmou um acordo com a Central dos Trabalhadores da Bolívia (COB), uma das principais entidades organizadoras dos protestos. A COB inicialmente pedia a renúncia do presidente, mas após o acordo, outros setores ligados ao ex-presidente Evo Morales continuam mobilizados e mantêm os bloqueios nas principais cidades.
Contexto político
Paz, do Partido Democrata Cristão, venceu a eleição de outubro do ano passado no segundo turno com 54,49% dos votos, contra 45,47% do candidato de extrema direita Jorge “Tuto” Quiroga, da coalizão Aliança Livre. A eleição marcou o fim de mais de 20 anos de governo do partido Movimento ao Socialismo (MAS), de Evo Morales, interrompido apenas pela presidência de Jeanine Áñez (novembro de 2019 a novembro de 2020), após o que foi classificado como golpe da direita contra Morales.
Morales estava impedido de concorrer por decisão judicial e lançou campanha pelo voto nulo, que atingiu 19,3% dos votos válidos. A crise no MAS já vinha de antes: o ex-presidente Luís Arce, que foi ministro da Fazenda de Morales, viu sua relação com o líder se deteriorar durante seu mandato, culminando em 2023, quando Morales acusou Arce de traição e teve seu partido negado pela Justiça Eleitoral.