O estreito de Hormuz, via estratégica para o comércio mundial, está bloqueado desde 28 de fevereiro por decisão do Irã, após ataques de Israel e Estados Unidos na região. A interrupção gerou uma crise de abastecimento que atingiu mercados de combustíveis, alimentos, fertilizantes e frete marítimo. No domingo (14), o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou um acordo de paz com o Irã para encerrar os conflitos no Oriente Médio, com formalização prevista para sexta-feira (19). Autoridades dos dois países afirmaram que a estrutura de paz inclui a reabertura da rota do petróleo, mas detalhes oficiais ainda não foram divulgados.

Importância estratégica do estreito

Cerca de um quinto de todo o petróleo bruto produzido no mundo passa pelo canal. Países como Irã, Iraque, Kuwait, Qatar e Bahrein, grandes produtores, dependem do estreito para exportar. Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos dispõem de rotas alternativas, porém mais restritas.

Além do petróleo, o estreito é rota essencial para gás natural liquefeito (GNL), fertilizantes, produtos químicos, plásticos e grãos. Mais de 20% das exportações mundiais de GNL, produzido por Qatar e Emirados Árabes Unidos, passam pelo canal. No caso dos fertilizantes, mais de um quarto da produção mundial depende da rota, com destaque para fertilizantes com enxofre, dos quais 44% da produção global trafega pelo estreito.

Impacto nos preços do petróleo

Durante o bloqueio, que já dura quase quatro meses, o preço do petróleo disparou. O barril do Brent saltou de US$ 72,4 para US$ 118,3 no final de março. Desde então, embora tenha caído gradualmente entre maio e início de junho, a cotação nunca mais retornou ao patamar anterior.

Risco de crise humanitária e impacto no Brasil

Há cerca de um mês, o escritório das Nações Unidas de Serviços para Projetos (Unops) alertou que o prolongamento do bloqueio poderia causar uma "grande crise humanitária", devido ao represamento de fertilizantes essenciais para a produção de alimentos. O agronegócio brasileiro é altamente vulnerável: o Brasil depende de cerca de 85% dos fertilizantes importados, é o quarto maior consumidor global e o principal importador.

A interrupção afeta tanto as exportações quanto as importações brasileiras. Pelo lado das vendas, 23,4% de todo o frango exportado pelo Brasil tem como destino os sete países da região (Qatar, Bahrein, Irã, Iraque, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Arábia Saudita); considerando todos os tipos de carne, o percentual cai para 14,8%. O setor de madeira também é afetado: os sete países consomem 5,1% de toda a madeira exportada pelo país. Nas importações, 5,1% dos derivados de petróleo e 4,1% do plástico comprados pelo Brasil vêm da região, segundo a consultoria DataLiner/Datamar.

Outros produtos e economias vulneráveis

Entre químicos e plásticos, cerca de 35% do comércio internacional passa pelo canal, conforme a MTM Logix. No segmento de grãos, 15% de toda a produção global é destinada aos países do Golfo, com destaque para trigo, cevada, milho e arroz. A China, principal destino do petróleo de Hormuz, sofre impactos que se propagam para exportadores como o Brasil. Índia, Coreia do Sul e Japão também são economias vulneráveis a bloqueios prolongados.